Dia 8 (07/12/2012) - ...Ainda em Frei
Achei que eu ia tirar uma soneca depois que o grupo tinha ido embora mas engano meu ! na verdade acabei me metendo em um treinamento de salvatagem sendo eu a vítima que seria salva. Começamos por volta das 5hs da tarde. Vesti a roupa especial de sobrevivência no mar gelado (survival suit), com várias camadas de roupa por baixo, botei um colete salva-vidas inflado e parti para a água. O treinamento foi feito a bordo de um dos zodiacs atracados na plataforma do navio. Em menos de cinco minutos comecei a suar muito e muito. O calor dentro da roupa era insuportável. Não via a hora de cair na água para ver se resfriava um pouco, mas depois descobri que isso não adiantava muito. Só as mãos ficavam mais ou menos em contato com a água gelada pois as luvas eram muito ruins. O resto..só passei calor !
Foto 1 Preparado para cair na água
Eu rolei pela borda, pulei, dei salto mortal, fiz de tudo e ria muito com tudo. Fui salvo e puxado da água umas 20 vezes, mas confesso que algumas vezes eu sacaneei meus colegas, pois não é fácil puxar alguém de dentro d'água, e no braço. E eu ainda atrapalhava segurando embaixo da borda do zodiac.
Foto 2 Pulando na água com salto mortal.
Foto 3 sendo salvo pela Loli.
Bem...adorei ! espero fazer isso de novo. E todos nos divertimos muito, mas a diversão durou pouco pois recebemos visitar: nada mais nada menos que o chefe da base russa de Bellingshausen, toda a guarnição de marinheiros da base chilena e o respectivo chefe, além de um grupo de pesquisadores do INACH - Instituto Antártico Chileno. Bem, tinhamos que fazer as vezes de donos da casa e a festinha correu até altas horas, mas eu escapuli e fui dormir a 01hs da manhã. Quem se deu mal foram as meninas, Pernille, Sandra e Loli, pois eram as únicas mulheres presentes. Coitadas !
Dia 10 (09/12/2012) - Novo Grupo - Classica Antartica 02 + Half Moon
A manhã do dia seguinte foi relativamente tranquila, e recebemos a notícia de que o avião com o novo grupo de passageiros tinha partido de Rio Galegos por volta das 9h15. A AXXI teve que alterar toda a programação de voo por causa das condições da pista, ainda congelada. Os passageiroas estavam voando de hercules, dessa vez um da força aérea argentina, saindo de Rio Galegos e atravessando o Drake em 3 horas e meia mais ou menos. Já eram 12h30 quando avistamos o avião chegando na ilha e dai começou o corre-corre. Eu desci da pista até a praia, cerca de 20 minutos caminhando na neve, fechando a fila de passageiros, e de pronto peguei um dos botes para iniciar o translado, juntamente com Mike e Ben, os outros dois pilotos de zodiac.
Foto 4 Hércules argentino na pista de Frei. Novos passageiros chegando.
Não havia muito o que fazer naquele dia pois já era bem tarde, e por isso Mariano decidiu que fariamos um desembarque na ilha Half Moon, as 19 hs. A luz estava maravilhosa e o céu de um azul profundo. Os glaciares ao longe na Ilha Livingston, que circunda toda Half Moon, se coloriam de laranja e vermelho. O tempo estava tão calmo que ouviamos os pinguins grasnando de longe. Muito bom. Dessa vez o grupo era meio chato, com muita gente que não atendia nossos avisos de permanecer distantes pelo menos 5 metros dos pinguins, ou se manter nas trilhas que abriamos, e tivemos que intervir várias vezes. Uma pena, mas acontece até que com certa frequência. Ainda vimos uma foca de Weddell descansando na praia, bem no local de desembarque.
Foto 5 Foca de Weddell descansando na praia.
Voltamos para o navio para jantar e logo depois desfrutamos de um belíssimo por de sol no estreito de Bransfield, a caminho da península. O sol se pôs as 11h45 da noite e sem uma única nuvem no céu foi possível observar um espetéculo raro - o "Green Flash". Em uma fração de segundo quando o sol se põem sob o horizonte, a difração da atmosfera extremamente limpa e homogênea (por isso é raro) faz com que seja emitido um flash esverdeado. Todos viram o falsh, mas Daniel, nosso guia de montanha, foi mais além. Ele conseguiu fotografar o raio verde. Parabéns Daniel !
Foto 6 O raio verde de Daniel.
Naquela noite eu fui para a cama logo em seguida, embora só tenha conseguido domir mesmo por volta da 1h da manhã. Estava cansado mas sem sono.
Dia 11 (10/12/2012) - Portal Point and Ohrne Cove + Lemaire
Navegamos para o sul por toda a noite e chegamos a um ponto novo que eu não conhecia na península - Portal Point. O local é uma ponte de gelo descendente suave que vem lá de cima da calota de gelo que recobre a antártica até a praia. Pela inclinação suave ela permitia o acesso a calota polar e o local foi usado pelos ingleses em 1950-60 para estudos de glaciologia e geologia. Na época eles usavam cães para puchar os trenós, mas estes foram proibidos a partir de 1992 pelo tratado antártico. Todas as espécies não antárticas foram retiradas do continente logo em seguida e nunca mais se usaram cães para o trabalho.
Foto 7 Local de desembarque em Portal Point.
Meu café foi rápido porque eu ainda tinha que dar uma palestra sobre pinguins antes do desembarque. Corri para me vestir logo em seguida e desembarcamos na praia pontualmente as 9 hs. O primeiro grupo subiu pela ponte de gelo até uns 100 m de altura e eu segui por um caminho mais suave, com um grupo de passageiros que tinham dificuldade de andar. O local tem um visual muito bonito e o céu azul ajudou bastante. Ao longe, sobre os picos da península, viamos nuvens lenticulares (em forma de lente) o que significava tempo bom mas com muito vento. Ainda deu tempo de fazer um passeio de zodiac. Peguei um dos botes e fomos passear entre icebergs e placas de gelo na baia Charlotte, em frente a Portal Point.
Então veio o almoço, e logo a seguir mais um desembarque, desta vez em Ohrne Cove, uma pequena baia incrustada na peninsula com uma pinguineira de mais de 100 m de altura. Ali o caminho é ingrime e de dificil caminhada, e é incrivel encontrar os pinguins tão alto. Muita neve pelo caminho ajudou na subida mas com um efeito ruim para mim. Meu sensor de temperatura instalado no ano passado estava sob uma camada grande de neve. Como não levei uma foto do local, eu sabia mais ou menos onde ele estava, mas a paisagem tinha mudado muito com a neve, e realmente não consegui encontrá-lo. Mais a noite olhei com calma as fotos do ano passado e descobri que eu passei por cima dele sem perceber. Na próxima oportunidade vou retirá-lo e trocá-lo por outro.
Foto 8 Pinguin tirando uma soneca nas alturas de Ohrne Cove.
Voltamos do desembarque felizes pela missão cumprida e fizemos até uma festinha privada, de 20 minutos, no nosso local secreto - deck 3 na popa aberta. Cerveja e centojas (carangueiro gigante), que o Doutor tinha ganho de presente em Port Williams. Delicioso.
Foto 9 Team Meeting no local secreto.
Continuamos seguindo para o sul até o Canal de Lemaire, e novamente cruzamos o estreito duranto um belíssimo por de sol. Desta vez não teve mid-night cruise de zodiac e pudemos descansar um pouco. Mariano, Loli e outros foram visitar o navio "Sea Adventure" comandado por um amigo e eu fui para a cama cedo. Meia noite eu já estava com certeza dormindo.
Foto 10 Lemaire a noite e os turistas congelando pela melhor foto.
Dia 12 (11/12/2012) - Neko Harbour e Danco Island + barbecue
Acordamos (ou melhor, caimos da cama) hoje as 6hs. Café da manhã super cedo mas na verdade tivemos uma palestra do Daniel sobre glaciologia. As 9hs desembarcamos em Neko Harbour, um lugar mágico com uma geleira bastante ativa e uma pinguineira de gentoos bastante barulhenta. Caminhando pela lateral da geleira e passando pela colônia, temos uma subida em neve um pouco íngrime, mas que vale muito a pena pelo visual da baia. Eu fui o primeiro a abrir a trilha e cheguei no mirante natural sem maiores problemas. Consegui localizar o sensor que eu instalei entre as pedras no ano passado e recoloquei um novo. Depois sentei ali e fiquei apreciando a vista fantástica da baía. Que maravilha.
Foto 11 Vista de Neko Harbour
Voltamos para o almoço rápido e logo a seguir nos reposicionamos no meio do canal Herrera, na ilha Danco. Esta ilha é um local bastante calmo, apesar de estar no meio do canal com correntes fortes de maré e grandes blocos de gelo flutuando por ali. Dessa vez decidi não subir a ilha que é bastante inclinada e acabei ajudando na praia, pois um grupo queria apenas caminhar por ali. Ficamos andando entre as pedras e poças de água formadas pela maré baixa por mais de duas horas. Acabei encontrando a carcaça de um leão marinho jovem, que provavelmente tinha morrido a poucas horas pois a membrana dos olhos ainda estava úmida. Deixamos ele ali mesmo na praia e decidimos voltar. Vários pinguins brincavam na praia e na água, e alguns subiam e desciam pelos caminhos na neve. Cheguei a fazer um filme com a minha mini camera, atraindo a atenção de alguns pinguins que decidiram testar se a camera era "gostosa". Apesar de bucólica, a cena foi quebrada pelos tons de cinza.
Foto 12 Pinguim curioso
O tempo tinha fechado e começava a nevar aqui. Voltamos as 16h30 horas para o navio, preparados para o "Polar Plunge" e mais ou menos uns 15 passageiros malucos pularam nas água geladas do canal Herrera. Super congelante, eu diria....mas aquecidos logo após por mais um churrasco maravilhoso, apesar do tempo ruim.
Teminamos a noite no Panorama Louge com uma palestra de Jonathan sobre a experiência dele na Antárctica durante o inverno. E eu fui para a cama cedo porque eu estava bastante cansado, mais pelo frio do que pelo trabalho.
Dia 13 (12/12/2012) - Mikkelsen Island e Spert
Não é a toa que acordar cedo faz bem a saúde. Mas sinceramente não ando me preocupando bem com manter a saúde. Acordamos as 7h15 e fomos direto para o briefing durante o café da manhã. Objetivo imediato - Ilha Mikkelssen. Uma pinguineira de gentoos estava tomando conta da ilha. Nenhuma novidade pois nos outros anos também estivemos por aqui e não encontrei nada demais. Eu tinha um sensor aqui mas ficou debaixo da neve. Só mesmo os pinguins para ajudar a movimentar o desembarque. Acabei ficando com o controle de tráfego da principal pista de pinguins subindo e descendo, impedindo que os turistas cruzassem a via quando algum pinguim estivesse usando a mesma. Pelo menos consegui tirar umas fotos legais. Abaixo dá para ver um pinguim todo sujo descendo para a praia para se lavar.
Foto 13 uma câmera no meio da Highway
Voltamos a bordo e logo depois do almoço dei minha palestra sobre Climate Change, e que teve como sempre um numero alto de ouvintes e uma discussão bem acalorada depois disso. Palestra dada, a atividade da tarde foi andar de bote entre os canais de Spert Island. Uma ilha vulcânica cheio de canais na forma de um labirinto e com a face norte voltada para mar aberto. O efeito disso é um número grande de icebergs encalhados por ali. A região tem ainda algumas cavernas magníficas, mas infelizmente dessa vez estava tudo tomada de pedaços enormes de gelo, o que dificultava a navegação.
Foto 14 Um buraco no meio do gelo.
Mas o visual de navegar entre pedaços de gelo maiores que um prédio é único. Além disso, as paredes imponentes de Spert deixa qualquer um de pernas bambas.
Foto 15 Lar Doce Lar....
Na volta, ainda fizemos uma foto do grupo na frente do Ocean Nova, para a alegria de todos. Eram quase 5h30 da tarde quando retornamos e só sobrou meia hora para um bom banho, e se preparar para o coquetel de despedida. Este grupo está indo embora no dia seguinte e por isso teriamos o nosso jantar especial e mais o concurso fotográfico. A minha noite terminou depois da 1h da manhã, no bar, conversando com os amigos guias, comemorando mais uma etapa cumprida com louvor, e também como despedida do "Thor", nosso guia sueco Bjorn, que vai deixar o navio amanhã rumo a casa dele. Antes de ir para cama fiquei admirando o por de sol maravilhoso no estreito de Bransfield enquanto o navio rumava calmamente para a estação chilena de Frei.
Dia 14 (13/12/2012) - Aguardando em Frei (e visitando Ardley Island)...
Chegamos em Frei as 7hs da manhã debaixo de um nevoeiro enorme, e já com a certeza de que o vôo tinha sido cancelado pela manhã ao menos. Então, estamos em standby mode em Frei aguardando por melhores condições de tempo. Minha tarefa agora pela manhã é guiar turistas pela ilha Ardley que fica a algumas centenas de metros do ponto de fundeio do navio. Assim que eu tiver tempo posto mais fotos.
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