terça-feira, 18 de dezembro de 2012

"Chinese" Classica Antarctica 03

Dia 15 (14/12/2012) - ...aguardando ainda em Frei e troca de passageiros


Minha última entrada nesse diário tinha sido logo depois do café da manhã sem saber muito bem o que iria acontecer, mas dai veio a notícia de que haveria vôo logo depois do almoço. A parte da manhã foi preenchida de trabalho com palestras, filmes, e um vem e vai de gente querendo usar a internet e telefone para acertar suas respectivas passagens para fora da "Neverland" Antártica. Engraçado esse nervosismo todo. Sei que muitos tem compromissos, mas acho meio falta de planejamento marcar vôos tão em cima das datas de sair daqui. Afinal, o tempo muda de uma hora para outra e ficar preso por aqui é algo bastante simples.


Logo depois do almoço começamos juntar todas as bagagens e zarpamos em dois botes para a praia, para desembarque de carga. Eu, Daniel e Mike em um bote, Joho, Ben e um marinheiro do navio em outro. Na praia, muito esforço para carregar nosso transporte, com mais ou menos uma tonelada de carga. Dai subimos para a pista com alguns passageiros mais idosos e com dificuldade de caminhar e o resto do grupo subiria com os outros guias.



Foto 1 Voo BAE da DAP trazendo os novos turistas.


Demorou mais ou menos duas horas até que o vôo chegasse e pousasse perto de nós, quase tudo pronto, tranquilo, calmo...mas de repente veio a avalanche. Um verdadeiro tsunami de chineses desembarcando, ruidosos, barulhentos e sem entender uma única palavra em inglês. Esse era o grupo da Clássica Antártica 03 - 61 chineses e um casal chileno (que trabalha na China). Foi um verdadeiro sufoco mas conseguimos juntar todos em um canto. Dessa vez o problema era que a pista não podia ser cruzada a pé. Portanto, precisamos fazer pelo menos 4 viagens com a nossa van de transporte mais um outro caminhão para trazer todos os passageiros (e levar os novos) para fora da área de estacionamento do avião, que nada mais é do que um espaço a céu aberto com neve por todos os lados.


A despedida do grupo que ia embora até que foi emocionante. Adeus, abraços, beijos....é bom sentir esse carinho quando um grupo vai embora porque significa que gostaram e que tive um papel importante na vida deles durante a viagem. É realmente reconfortante.


Embarcamos depois de meia hora com os botes ao navio e zarpamos imediatamente para o sul, para cruzar o estreito de Bransfield. O resto da noite veio com jantar e coquetel de boas vindas, que na verdade se transformou em uma verdadeira zona ruidosa mais uma vez porque os chineses tinham bebido "todas" e estavam muito felizes. A única coisa que conseguiamos falar, nós guias, era o nome e de onde eramos. O resto era só gritaria. Coloquei música de discoteca (Macarena) no computador e fui dormir, mas soube depois que o dancing club Ocean Nova funcionou até as 2 horas da manhã.


Dia 16 (15/12/2012) - Mid Trip ! Orne Island e Port Lockeroy + Lemaire a noite.


Acordei bem hoje, com fome de um bom café da manhã mas sinceramente querendo aproveitar meu café sozinho. Mal entrei no salão de jantar e meus ouvidos já estavam zunindo com a barulheira que os chineses estavam fazendo. Encontrei o esperto Doutor Sérgio saindo e aprendi com ele - amanhã vou acordar mais cedo e tomar meu café antes de todos. Hoje é Mid Trip para mim, e por tradição vou fazer a barba a noite.



Foto 2. Antes, durante e depois de fazer a barba.


O desembarque em Orne Island foi conturbado. Descemos as 10h30 com o ruidoso grupo de turistas chineses e foi preciso muita paciência para controlar todos. Foram mais ou menos 1h30 de caminhada e um tanto estressante, mas ao final todos se salvaram. Abrimos o gift shop logo depois do almoço e eu aproveitei essa uma hora e pouco para tirar uma rápida soneca. Valeu a pena.



Foto 3 Iceberg com um furo e o navio atrás.


E então, veio o tão esperado momento - Port Lockeroy. A base A inglesa da década de 50 ainda original e super bem preservada contém um museu e um pequeno shoping de lembranças (estupidamente caras !) dos ingleses. Florence, Ben, Flo e Kath cuidam do local e vivem por 6 meses espartanamente em uma ilha pouco maior que um campo de futebol, tendo como vizinhos uma boa centena de pinguins gentoos. A ilha fica em uma enseada abrigada com um glacier ao fundo, e uma das pontas de rocha exposta onde outra pinguineira gigante de gentoos é instalada todos os anos. Esta ponta chama-se Jugla Point e protege Alice Creek, um porto natural para veleiros que passam por ali, mas que agora estava vazio e tomado de gelo marinho. Mas é um local que eu tenho um carinho muito especial e onde eu gostaria seguramente de passar o inverno.


Fui designado para Jugla com Pernile, Joho e Rodrigo Tapia, novo integrante do grupo que chegou agora, e passamos uma hora e meia por ali com mais ou menos 35 turistas. Logo depois atravessei de bote para a ilhota de Port Lockeroy e falei rapidamente com o pessoal de terra. Tirei várias fotos para os amigos e vi uns livros interessantes. Quem sabe da próxima vez a gente fica mais tempo por ali.



Foto 4 A bela e doce Port Lockeroy.


Voltamos para o barco debaixo de um vento frio e forte anunciando uma nevasca que veio com força por volta da hora da janta. Nosso objetivo era cruzar o canal de Lemaire e foi o que fizemos, mas era impossível enxergar mais de 10 m além da proa do barco. Paramos logo na saida do canal de Lemaire, em Plenneau Bay, e ancoramos. Fiquei no bar até umas 11 hs jogando conversa fora com os meus colegas e fui dormir...cansado, mas de certa forma feliz. Afinal, hoje é Mid Trip para mim :)


Dia 17 (16/12/2012) - Paradise Bay e Ohrne Harbour


São 6h00 da manhã. Nem deixei o despertador tocar duas vezes, mas ainda demorei enrolando um pouco na cama. Eu aproveitei a data marcante de Mid Trip para "tentar" entrar nos eixos, aproveitando o embalo de diminuir a comida, que eu já estava executando a uma semana. Na primeira semana eu comi demais aqui e acho que engordei muito. Então, a solução era fechar mais a boca. Por outro lado, apesar de estafante, o esforço que fazemos durante os desembarques não pode ser considerado exerçício físico. Então, hoje eu comecei a remar por 15 minutos. Calma ! não é remar no mar gelado (se bem que eu adoraria), e sim em uma máquina no ginásio do navio.


Logo depois subi para o Panorama Lounge, o nosso "bar" e salão de convivência, e para minha surpresa mais da metade do navio estava acordada. O navio coloca croassaints e paezinhos doces com café e chá, o chamado "Early Bird" na mesa do salão, e eu vim caçar comida. Mas já tinha tudo praticamente desaparecido da mesa. Consegui me safar com um pão doce e chocoexpresso.



Foto 5 Dirigindo e cruzeirando entre as paredes geladas de Skontorp..



Foto 6 Eu coberto de neve.


O tempo estava muito ruim com neve e vento em Paradise Bay, mas mesmo assim descemos os botes e peguei um grupo de 10 chineses rumo a Skontorp, o maior glacier da área. Sandra me seguiu e em dupla exploramos o fundo da cova de Skontorp onde alguns veleiros costumam parar para fundear e descansar. A cova estava vazia, mas com algumas peças de gelo flutuando. Em uma delas encontramos duas focas caranguejeiras e meia dúzia de pinguins. Com a neve e o vento, o glaciar Skontorp estava silencioso. Na volta, navegando rápido em direção a base Almirante Brown (em Paradise), fiquei todo coberto de neve e o frio não dava trégua. A única coisa que me deixava confortável era o nível de adrenalina alto no sangue, resultado de navegar rápido com o zodiac. Fizemos uma parada rápida na base vazia (e cheia de pinguins) e os turistas aproveitaram para descer de esqui-bunda uma rampa de gelo que tem por ali. Eu não via a hora de voltar a bordo, o que aconteceu as 10h30 para desfrutar de um Brunch (Breakfast + Lunch). Até deu tempo de tirar uma rápida soneca antes das 14h00 quando descemos em Orhne harbour, debaixo de um vento cortante com muita neve.



Foto 7. Abrindo o caminho para o "Gap"de Orhne Cove.


Daniel, Johnatan, Rodrigo e eu subimos rapidamente a encosta já com uma espessa camada de neve, e montamos a trilha para os turistas. Ficamos mais ou menos duas horas por ali, congelando, mas tudo bem, pois até consegui recuperar meu sensor de temperatura. Da última vez que eu estive ali, procurei em vão e não tinha encontrado. Na verdade, eu tinha passado por cima dele mas não reconheci o local. Dessa vez levei uma foto comigo e facilmente achei a rocha com o sensor em uma fenda. Troca feita, desci rapidamente a costa para fazer o meu trabalho de taxi-boat. Terminamos a operação as 17h00 e fui direto para o banho quente...ahh que delícia. E que bela surpresa, sai para o deck 4 para o antarctic barbecue e tive a grata surpresa de um sol aparecendo entre as nuvens. Foi ótimo ! sol, churrasco e vinho quente, não poderia pedir mais. Tranquilamente desfrutamos daqueles momentos, descansando e assim que terminou desci para o deck 2 pois eu tinha que mudar de quarto. Até o momento eu estava dividindo com Daniel mas a esposa dele está chegando na próxima viagem e eu mudei para o quarto ao lado, pequeno mas confortável (e eu sozinho, é claro !).


Além disso, passei o tempo todo no deck 2, na sala de jantar (rancho) da tripulação, para comemorar o aniversário de Rex, o chefe dos camareiros da tripulação. Parabéns Rex ! E rolou karaoke, regado a vinho e comida típica filipina (extremamente apimentada !!) até mais ou menos meia noite. Fui dormir tranquilo, enquanto o Ocean Nova navegava também tranquilamente pelo estreito de Bransfield, atravessando para ilha Deception, nosso objetivo para o dia seguinte.




Foto 8. Eles não podem ver um microfone que já começam cantando.


Dia 18 (17/12/2012) - Deception and Yankee


O dia começou cedo para mim. Acordei as 6h00 já sem sono e com um pouco de fome. Só esperei o "Wake up call" as 6h30 para correr para o café da manhã. Ahh como é bom tomar café cedinho sem o burburinho dos passageiros. Não demorou muito apareceu o doutor Sérgio e outros membros do Staff, e logo mais as 7h00 todos os passageiros desceram juntos. Estávamos entrando pelos "Foles de Neptuno", a estreita entrada de Deception Island. A idéia era ir até o fundo da baía, Pendulum Cove, para nadar mas uma espessa camada de gelo ainda cobria toda Telephon Bay onde está Pendulum Cove. Mesmo espesso, o gelo já apresentava falhas com várias poças de degelo. Por isso, marcamos um perímetro ao redor do barco e descemos todos em um corredor para tirar uma foto no meio da neve. Foi legal ! Fizemos uma grande roda, eu filmei no meio e todos correram para onde eu estava depois de algum tempo. É uma roda tradicional no pólo norte e repetiram aqui.



Foto 9. Pendulun cove, Deception Island


Mas o tempo corria e em menos de uma hora já zarpamos de Deception rumo a Ilha Greenwhich, para Yankee Harbour. Demos uma paradinha rápida logo depois de sair de Deception para observar um evento interessante: várias baleias jubartes na área estavam fugindo de uma gangue de Orcas. Não vimos exatamente a caça, pois assim que chegamos as orcas saíram da área, e as jubartes ficaram navegando perto do navio, talvez procurando um pouco de proteção...mas tudo isso um talvez. Infelizmente não podiamos ficar muito tempo ali pois tinhamos que chegar em Yankee Harbour antes das 14hs.



Foto 10. A praia de Yankee.


O vento subiu bastante e apesar do sol, chegamos perto de Yankee por volta das 12h30 com mais de 30 nós de vento (60 km/h mais ou menos). Mesmo assim desembarcamos pelo lado protegido do navio e encaminhamos o grupo para a pinguineira de Yankee. Eu fiquei no meio do caminho pois queria começar a caminhar na outra direção que eu acho mais interessante. Lá pelas 14hs iniciamos a caminhada até a ponta desse porto natural, onde vários elefantes marinhos estavam descansando e tomando sol na praia. Até que eles ficaram calmos, mesmo com a algazarra que os chineses fizeram. Encontramos também algumas focas de Weddell bem preguiçosas. Nem para a foto elas quisetam posar. Hora de voltar, descemos ali mesmo na ponta com os botes e fizemos travessias curtas, de mais ou menos 5 minutos, sob ondas e vento. Eu fiquei no último bote, e apesar de parecer ruim no começo, até que foi bastante tranquilo chegar até o navio. Só me molhei um pouco.



Foto 11. Foca dorminhoca !


Voltamos para o navio e deu ainda para tirar uma soneca de meia hora. Nosso coquetel de despedida estava marcado para as 18 hs e tudo correu como planejado. Ainda de quebra, entrando na baia Fildes, passamos pelo navio da marinha do Brasil, "Almirante Maximiliano".



Foto 12. Almirante Maximiliano saindo da baía Fildes, na Ilha Rei George.


Depois da janta (rápida) ainda desembarcamos por 2 hs na estação chinesa Great Wall, enorme, com quase 300 pessoas e que opera verão e inverno. Mas fiquei só do lado de fora porque sinceramente, achei grande demais. Observações estéticas a parte, pelo menos fiz um bom passeio. Agora, vou postar esse texto e ir dormir...amanhã é Rock Time já as 8hs da manhã, quando vou desembarcar para verificar o estado do caminho entre a praia e a pista de pouso em Frei.

Nenhum comentário:

Postar um comentário