domingo, 23 de dezembro de 2012

Heroica Antarctica 02

Dia 19 (18/12/2012) - Rock`n Roll Day - troca de passageiros


7h00 da manhã eu já estava de pé e pronto para a luta. Rock`n Roll day ! No café da manhã Mariano passou as instruções e eu zarpei logo no segundo bote de bagagem, passando bem pertinho do navio "Almirante Maximiliano", da Marinha do Brasil, que também iria fazer descarga de material e pessoal. Na praia alguns brazucas aguardavam o bote deles - engraçado, não senti saudades alguma dos tempos do PROANTAR. Hoje vejo a operação de troca de passageiros cansativa, mas não complicada. Trabalhamos super bem nisso. Mas quando vejo que o PROANTAR ainda usa o mesmo método de sempre (bote, passageiros, carga, andainas, caminhar na pista, aguardar o vôo, etc etc etc), realmente não sinto saudades desse tempo.



Foto 1 Grupo novo chegando no BAE, na área Charlie.


Descarregamos as malas na van e fui para a área Charlie, onde o avião estaciona para desembarque de passageiros, e logo na chegada já avistamos o hércules brasileiro sobrevoando a ilha. Aparentemente eles iriam desembarcar primeiro. Acompanhei a descida do avião e ao longe, vimos o nosso avião, um jato BAE inglês, se aproximando da ilha pelo outro lado. Ia ser apertado. Mal o Hércules brasileiro estava entrando na área Charlie, o BAE estava em descida para pouso. O intervalo entre os aviões foi de menos de 5 minutos. A turma que desembarcou era bem diferente do que tinhamos experimentado nesses últimos dias. Um grupo grande de Stanford (MBA em negócios) com mais de 25 pessoas, uma mistura de casais europeus e americanos, um casal de brasileiros e uma familia inglesa. Todos bem comportados. Em menos de meia hora começamos o vai e vem de passageiros e carga, e dessa vez eu acabei ficando ao lado do avião para ajudar com os chineses que estavam partindo e bagagem que estava chegando. Fui aportar no navio mais de duas horas depois, bastante cansado de carregar malas. Pegamos ainda o final do almoço e depois disso fui tirar uma soneca básica.


Essa viagem tem a denominação de Heroica Antarctica 02 porque vamos fazer a rota dos tempos heróicos atravessando pelo Antarctic Sound na ponta da Península para dentro do mar de Weddell, se as condições de gelo permitirem. Apesar do 02 no nome, esta era a primeira vez na temporada que a AXXI estava fazendo essa rota, já que a HA01 tinha sido cancelada exatamente pelas condições de gelo no mar de Weddell. Não tinhamos muita esperança de entrar tão a fundo por ali. Começamos imediatamente a travessia do estreito de Bransfield, entre a ilha Rei George e a península e o navio começou a rolar um pouco, apenas um pouco, mas o suficiente para colocar a nocaute metade dos passageiros. A tarde foi tranquila até demais e a janta praticamente vazia. Tivemos o coquetel de boas vindas com apenas meia duzia de sobreviventes, e assim começamos o dia 01 da HA02-Rock`n Roll.



Foto 2 Visão multicolorida de Antarctic Sound com a lua se pondo no horizonte.


Lá pelas 22hs já estavamos entrando nas imediações da ponta da península, e vários icebergs gigantes começaram a aparecer. Esses icebergs vem de dentro do Mar de Weddell e são capturados pela corrente contrária que passa pelo gap entre a península e a Ilha Joenville. O sol estava se pondo maravilhosamente laranja, sob um céu azul profundo e começaram a aparecer as primeiras almas reestabelecidas, já que o balanço do navio praticamente parou quando chegamos mais perto da península. Mais e mais icebergs apareciam e o cenário foi ficando multicolorido, cheio de gelo, pedaços de mar congelado, blogos imensos como prédios, o céu alaranjado atrás dos glaciares e zero de vento. Fui dormir a 1 h da manhã e o meu dia iria começar bem cedo, mas valeu a pena ficar acordado e acompanhar esse espetáculo.


Dia 20 (19/12/2012) - Rota Heroica - Antarctic Sound e a ponta da Peninsula


Quando Mariano entrou no sistema de som para dar o Bom Dia Ocean Nova as 5h30 da manhã, eu já estava acordado, no Panorama Lounge e tomando um café quente e comendo um croassaint. Nosso destino era Brown Bluff, uma praia encravada no meio de uma geleira, com mais ou menos 100.000 pares de pinguins Adélie, barulhentos e ativos. Na praia não tinhamos muito espaço e tinhamos que ter o maior cuidado para andar por ali e não perturbar a paz dos pinguins, se bem que a barulheira da colônia não pode ser definida exatamente como um lugar silencioso. Ficamos das 6hs as 8hs por ali, entre pinguins, alguns gentoos e milhares de adélies, andando de um lado para outro na praia. A manhã estava fria, e o mar tinha uma fina camada de gelo formado durante a noite. Vento absolutamente zero e céu azul com sol. Convidativo demais e irresistivel para alguns. Primeiro foi um russo que tirou a roupa e se atirou na água gelada da praia, seguido por mais uma boa meia dúzia. Fiquei com inveja, mas eu estava trabalhando e não dava para entrar na água naquele momento.



Foto 3 Pinguins na praia de Brown Bluff.


Voltamos para o barco para um longo e quente café da manhã, seguido de uma palestra de Daniel sobre a Antártica, enquanto o navio rumava para leste, até encontrar pedaços bastante grandes de pack ice, o mar congelado do último inverno que se quebrava em placas enormes derivando nas águas de Antarctic Sound. Esperávamos encontrar pinguins e focas, mas na verdade só viamos gelo e mais gelo a perder de vista. Ficamos na área procurando sinais de vida polar por mais ou menos duas horas, até que chegamos a um ponto onde começou a ficar perigoso avançar mais com o navio, correndo o risco de ficar preso no meio do gelo. Ninguém ali queria dar uma de Shackelton. Demos meia volta e rumamos para oeste novamente, para a ponta da Península, onde nosso objetivo era entrar na Ilha Gourdin, a terra perdida dos pinguins.



Foto 4 Gelo marinho a leste de Antarctic Sound.


O cenário era no mínimo de filme. Um recife de rochas vulcânicas alto formou canais ao redor da ilha e cada pedaço de pedra, mesmo que mínima estava coberto com uma camada grossa de mais de um metro de neve. Como a maré alí sibre mais de 2 metros, haviam várias cavidades por baixo da camada de gelo e neve, e que com a baixamar que estávamos, formavam espaços estranhos entre o mar, a rocha e a neve por cima. E sobre a ilha, centenas de milhares de pinguins adélie, gentoo e chinstrap, todos absolutamente juntos. Não havia organização aparente, e parecia que eu estava entrando em uma estação de trem cheio de gente de paletó (os pinguins), correndo de um lado para o outro. Essa era literalmente a terra dos pinguins. Foi muito difícil achar um caminho seguro (para os pinguins), entre os ninhos que simplesmente se multiplicavam entre cada pedaço de rocha exposta. Incrível ! Passamos mais ou menos duas horas naquela ilha maluca. Eu ainda andei até o outro lado da ilha, onde uma geleira enorma desemboca suavemente no mar. Mesmo assim, o ponto mais alto da ilha e ainda assim, cheio de pinguins.



Foto 5 A Terra dos Pinguins em Gourdin Island.


Voltamos para o navio no final do dia, cansados mas bastante satisfeitos com mais uma visita em um lugar espetacular como esse. Hora de dormir - sonhando com essa imensidão branca e os milhares de pinguins. Estávamos rumando sul para Cierva Cove, na parte central da península.


Dia 21 (20/12/2012) - Cierva Cove, Portal Point e Churrasco


Acordei bem pela manhã, disposto e com vontade de sair do barco para passear um pouco. Na verdade, acordei meia hora mais cedo do que o Wakeup Call do Mariano e fui circular pelo navio. Nossa programação da manhã incluia um passeio de zodiac pela baia Cierva, a meio caminho entre a ponta da península e o sul. E foi o que ocorreu. As 9hs eu já estava pulando dentro de um bote e partindo com 10 passageiros para o interior da baia completamente congelada. O mar estava qualhado de pedaços pequenos de gelo e isso fez com que andássemos bem devagar. Circulei por mais de uma hora para dentro da baia sem ver um único animal. Só na volta, quase 11hs da tarde, é que encontramos uma foca adormecida sobre uma placa de gelo. Foi o único ponto alto do passeio. Voltamos ao barco para o almoço, já navegando rumo sul para Portal Point. Eu aproveitei que estava vestido com roupas quentes e fiquei ainda um pouco do lado de fora, curtindo a vista, o sol, e a imensidão do estreito de Gerlache.



Foto 6 Foca preguiçosa em Cierva Cove.


Incrivel ! tenho a tarde livre e nem sei muito bem o que fazer. Mariano instituiu um "Free Time" para cada um de nós, de tempos em tempos. Dormi um pouco depois do almoço e depois fui tomar sol enquanto o navio silencioso ficou fundeado na frente de Portal Point. Ao longe eu via a fila de turistas subindo o glacier. Aproveitei para escrever um pouco e ainda tomei um chocolate quente, pois embora agradável, o vento frio dava a opção de tomar algo quente.



Foto 7 Tarde livre em Portal Point.


Lá pelas 5 hs da tarde os passageiros começaram a retornar, principalmente porque o vento estava quebrando todo o gelo marinho do fundo da baia e espalhando várias peças por volta do navio. Estava ficando cada vez mais complicado de fazer o translado de bote da praia para o navio e rapidamente todos estavam a bordo antes que ficasse perigoso demais. Eu via o movimento só do navio, já que ainda estava dentro do meu Free Time. Lá pelas 5 hs da tarde começou o vai e vem dos botes e eu já estava devidamente vestido e aparatado para o churrasco. É o nosso dia de vestir livremente roupas que não sejam nosso uniforme de trabalho. Difícil, pois eu não tenho muito mais coisa na minha mala. Sol e mais sol, um pouco de vento mas pouco, e muito gelo ao redor do navio. E não é que apareceu uma foca xereta tentando chegar perto do navio ?! perto até demais pois ela literalmente "cheirava" o casco. Maluca !


Zarpamos dali as 19 hs e mal começamor a navegar, avisamos duas baleias jubartes comendo krill, abrindo as grandes bocas e dando verdadeiras golfadas com água cheia de krill. Chegamos perto, mais perto, pertíssimo, perto demais ! e desligamos o motor, e não é que as duas baleias xeretas ficaram investigando o navio ? Uma delas chegou a querer empurrar casco do barco, de tamanha curiosidade. Não preciso nem dizer quantas fotos foram tiradas ali: milhares ! A coisa que eu mais ouvia era o barulho do disparo das cameras. Ficamos por ali olhando esse hábito estranho por mais de uma hora, mas o tempo começou a ficar apertado e tocamos adiante, deixando as baleias para trás. Maginífico.



Foto 8 Foca intrusa no churrasco.


A noite ainda teve o Quiz do Ben Jackson e do Doutor Sérgio, junto com uma festa meio fantasia, ou seja, estilo praia. Vesti minha bermuda xadrez, uma camiseta laranja, e parti para a festa. Fui dormir lá pelas 1h30 da manhã, mas sei que o festerê rolou até umas 4 hs. Haja fôlego !


Dia 22 (21/12/2012) - Neko harbour, Polar Plunge e Gordon Point


Acordamos em Neko no horário de sempre: 7h30. Café completo tomado e preparado para dirigir. Minha função hoje pela manhã era de taxi-boat, coisa que eu adoro fazer.Fizemos a foto do grupo logo que chegamos na praia e dai foi subir e descer a geleira ao redor da pinguineira de Neko Harbour sob um céu azul profundo e temperaturas bem acima de zero. Meu termometro marcou 26 graus junto ao meu corpo, mas as medidas longe de qualquer fonte de calor mostravam que o ar estava quente - de 6 a 11 graus. Para variar o grupo de garotões de Stanford abusou um pouco. 3 deles simplesmente tiraram a roupa no topo da geleira, só para posar nú para uma foto e colocar no facebook (para a alegria das meninas). Tem gosto prá tudo ! Descemos depois de duas horas e fomos direto para o Polar Plunge - a atividade mais concorrida da viagem antártica. Tivemos mais ou menos uns 45 mergulhadores malucos caindo na água dessa vez. Foi divertido - e gelado. Eu trabalhei como de costume na linha salva-vidas, ficando mais molhado do que seco com o vai e vem de turistas ensopados.



Foto 9 Eu, Sandra e Carlos em Neko Harbour.


O almoço foi curto e mal eu tomei meu cafezinho pós comida, já estava me arrumando para mais um desembarque. Nosso ponto era George Point, na Ilha Rongé. Lugar maravilhoso - amplo espaço, vários pinguins e uma caminhada excelente pelo glaciar. Incrível !A vista é magnífica e deu para curtir um bom par de horas sob o sol quente antártico, um vento persistente mais geladinho e o céu azul. No horizonte já haviam algumas nuvens, mas no geral, o tempo estava absurdamente incrível.


E foi assim que terminou mais uma viagem pela península. Rumamos para Deception a baixa velocidade pois nosso compromisso ali seria apenas de manhã cedo. Lindo final de dia em Gerlache, navegando entrea península e as ilhas, em uma mistura de branco da neve, azul do céu, azul profundo do mar e o preto das rochas expostas, apesar de poucas.


Dia 23 (22/12/2012) - Deception Island e Half Moon Island


Quando Mariano acordou o navio as 7h00 da manhã eu já estava de pé, montando minha câmera do lado de fora do deck 5, para filmar a entrada do navio na ilha Deception. O mar estava super calmo e sem vento, e mais uma vez o céu estava limpo e com sol. Desembarcamos na ilha Deception as 9 hs da manhã e praticamente todo o grupo seguiu para a face sudeste de ilha, na parede interna do vulcão, onde o visual é maravilhoso. Caminhamos por mais ou menos uma hora, e o tempo começou a mudar levemente. Nuvens mais pesadas apareceram no horizonte e um ventinho gelado subia as paredes externas da ilha e nos esfriava um pouco. Mesmo assim, foi uma caminhada super tranquila e cheia de visual. Deception tem uma magia especial, por ser um vulcão talvez, ou pela paisagem quase que de um outro planeta. Um pouco antes de encerrarmos o passeio, apareceu um pequenino veleiro entrando pela abertura da ilha. Fui ao encontro deles com o meu bote e descobri que eram 4 australianos e uma inglesa que tinham acabado de atravessar o estreito de Drake. Estavam entrando em Deception para descansar da travessia dura de 5 dias.



Foto 10 Paredão de Deception. Vista magnífica.


Então veio o almoço e o navio se movimentou de Deception para a ilha ao lado, Livingston. Na verdade, desembarcamos as 15 hs em uma pequena ilhota na enseada leste chamada Meia Lua, ou Half Moon, já conhecido nosso de outras viagens. Desembarque tranquilo de 2 horas, minha função foi de controlar o tráfego de passageiros próximo a principal highway de pinguins, na metade da ilha. Sem muito esfoço, aproveitei o momento para relaxar e observar os pinguins, alguns, curiosos, chegavam até quase o meu pé. Outra coisa incrível é também a mudança na neve. Fazia menos de uma semana que haviamos estad ali e a cobertura de neve tinha diminuido pela metade. Provavelmente na próxima vez já veriamos filhotes nos ninhos e quase mais nada de neve. E é assim que funciona tudo por aqui, rápido e dinâmico.


Voltamos para o navio as 5h30 e tive apenas poucos minutos para um banho e trocar de roupa. Iniciamos as festividades de despedida do grupo enquanto o navio se reposicionava na frente da estação chilena na baia Fildes. Eram 22 hs quando meu celular vibrou e captei o primeiro sinal de civilização. Mas já era tarde e ainda estava rolando a festa de despedida. Fui dormir tarde, mas com a missão de logo cedo pela manhã atualizar esse diário.


E agora...6hs da manhã do dia 23/12, estou aqui terminando essas linhas. Já sei que haverá vôo e mais uma vez zarpamos para o sul, para a minha última pernada de viagem, meu Natal fora de casa e meus últimos dias em Neverland. Então...até daqui a 5 dias.


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