Dia 29 (28/12/2012) - Presos em Frei
Esse era o dia do nosso vôo, mas quando chegamos em Frei e olhamos pela janela, a única coisa que viamos era a névoa densa ao redor do navio. Mal podiamos ver as pedras na praia a menos de 50 metros do navio. Por isso, a ordem era aguardar e ter paciência. Eu praticamente tinha organizado minhas coisas, mas precisava arrumar tudo dentro da minha mala velha de guerra. Pela manhã passamos um filme, dai veio o almoço e a informação de que a tarde não teriamos vôo de qualquer forma pois o tempo estava muito ruim. Então, Mariano descolou um desembarque na fria estação Frei, para visitar os chilenos (da base naval Fields) e os russos de Bellinsghausen, distantes apenas 100 metros e divididos por um pequeno rio de água de degelo que dava para atravessar a pé.
Eu trabalhei de taxi-boat e depois desembarquei nos chilenos, onde fiquei ajudando a controlar o fluxo de visitantes dentro e fora do aconchegante prédio branco e azul na beira da praia. Ainda dei um pulo em Hardley Island sozinho para tentar encontrar um dos meus sensores, mas descobri que o gelo tinha levado tudo, como uma grande lixa, na parede de pedra onde eu havia instalado ele no ano passado. Uma pena.
Veio o jantar e a notícia de que haveria uma janela de tempo na madrugada. Portanto, nossos planos eram descansar a noite e começar a fainda de desembarque de malas as 01h30 da manhã seguinte. Então, voltei para o meu quarto, terminei de fechar tudo e ainda ajudei um pouco aqui e ali pois vários passageiros ainda tinham que mudar as passagens de retorno para os seus países. Cai na cama já eram 23hs e eu sabia que a noite seria muito curta.
Dia 30 (29/12/2012) - Bye Bye Ocean Nova
Foto 1. Mar revolto e o Ocean Nova ficando para trás.
Era pontualmente 1h30 quando Mariano bateu na minha porta e disse "showtime". Mudei rapidamente de roupa, coloquei a mochila do lado de fora do quarto e parti pra luta. Tinhamos que retirar todas as bagagens em meio de meia hora do barco. Tudo foi muito rápido. O névoa tinha desaparecido e tinha dado lugar a um vento forte gelado de mais de 30 nós. O tempo estava muito feio e fechado, e tudo balançava muito. Colocar as babagens no bote não foi uma tarefa fácil. Eu estava pronto (eu acho!) mas Mariano me pegou de surpresa, e pediu para eu embarcar no segundo zodiac e ir ajudar na praia. Só deu tempo de dar um abraço, dizer adeus para quem estava na volta, e pulei imediatamente no bote de Mike rumo a escuro. Eu via o Ocean Nova se afastar rapidamente e a praia crescer na nossa frente. Haviam ondas de 1 metro quebrando na linha da praia e sofremos um pouco para passar as bagagens para a van sem molhar tudo. A van foi para a pista, o barco foi embora pegar mais bagagens e eu fiquei por uns minutos ali sozinho na praia..apenas esperando. 3 pinguins ali na praia também aproveitavam a paisagem inusitada. Eu me sentia leve e pesado ao mesmo tempo, leve por ter deixado para trás o meu escudo de membro (o colete salva-vidas azul, que eu não usaria mais) e pesado porque ainda carregava o rádio, meu último ponto de ligação com a operação.
Mike chegou com mais malas, e começaram a chegar também passageiros. Me despedi do meu irmão canadense, e depois da dinamarquesa Pipi. Passageiros chegando, Loli e Sandra desembarcaram e agrupamos todos na praia, contra o vento, de forma a proteger eles o máximo possível. Por volta das 2h30 veio a notícia que o avião havia pousado e começamos a lenta subida até a pista. Os passageiros estavam bastante cansados, mas não houve contratempos. Me despedi de "Mestre Yoda"- Rodrigo Tápia, na praia e no dia anterior também tinha me despedido de Carlito, o barman. Na subida, encontrei com Loli descendo com o grupo novo de passageiros que chegava, e Ben, fechando a fila, junto com o novo membro do grupo, Nils, que ficou com o meu rádio. Dei um longo abraço em Sandra, minha companheira de muitos e muitos chás nas tardes frias, e assim cortei o cordão umbilical. Lá em cima na pista, corremos para entrar na aeronava e pontualmente as 3hs da manhã o avião levantou vôo, deixando para trás Neverland.
Foto 2. Embarcando no avião para Punta Arenas. Bye Bye Antártica.
Chegamos duas horas depois em Punta Arenas e fiquei até as 9hs da manhã no aeroporto ajudando a embarcar passageiros, pegar as botas especiais, carregar malas, enfim...trabalhando em ritmo normal. Fomos para o escritório da AXXI logo depois e finalmente consegui tomar um bom banho, mas nada de descanso. Ainda fui ao centro da cidade para trocar minha passagem e meu último compromisso com passageiros - almoçar com a maravilhosa familia Gilchrist. Clive e Angela, e as filhas Philiipa e Julia. Pessoas muito legais ! é ótimo encontrar essa variedade cultural e pessoas tão do bem. Depois do almoço ainda fui a zona franca comprar uma mochila nova pois a minha estava se despedindo desse mundo. Tadinha, rasgou inteira. Voltei a cidade para as compras de última hora e para o escritório para terminar meu relatório de viagem, entregar roupas especiais e fechar a mala. Mal deu tempo de respirar - janta e vupt ! taxi para o aeroporto, para a minha longa jornada até o Brasil. Peguei o vôo das 00:15 de Punta Arenas, lotaaaadoooo, para Santiago, e só consegui pregar o olho um pouco depois da decolagem, pelo menos até uma hora depois, em uma cadeira totalmente desconfortável.
Dia 31 (30/12/2012) - The End
Cheguei no aeroporto de Santiago as 4hs da manhã, bastante cansado e com o corpo moído, sentindo a viagem pesada e as últimas 36 horas malucas da viagem. Tive ainda que aguardar 3 horas no aeroporto, deliciosamente gastas comendo uma torta de frutas vermelhas no Gatsby, na minha cadeira cativa. Depois fui para o portão de embarque e me recostei em uma coluna para aguardar o embarque. Uffa ! quase perdi o vôo pois cochilei. Fui um dos últimos a entrar no vôo e sentar na última fileira. A minha era a última poltrona do vôo. Fehcei o chapéu sobre o rosto, cobri meu corpo com um cobertor da TAM e apaguei até chegar bem perto de São Paulo. Até tive sorte - minha mala saiu rápido e em menos de meia hora eu estava do lado de fora do aeroporto, na fila para pegar o ônibus para Santos. Foram 3 horas de descida da serra que eu aproveitei cochilando, até chegar no litoral sob 30 graus C, mormaço e chuva fina.
Foto 3. Bem vindo de Mariana
Nem preciso dizer que a recepção de minha filhota, minha mãe e minha cachorra foi fantástica. E assim acabou mais uma temporada para mim. Tenho um ano inteiro pela frente aqui no mundo real, e estou trazendo muitas lembraças que irão me fazer pensar. É estranho - Neverland - a terra do nunca, onde não há doenças, não há dinheiro, é a minha casa. Estou na minha "outra" casa agora, e só quero dormir, descansar. Pelo menos por hora. Ainda não caiu a ficha, mas ela vai cair. Então só resta a saudades. Adiós.
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