Dia 24 (23/12/2012) - "Cai fora Stanford" e entra CA03
Existem momentos que eu penso, penso, penso e conto até 10. Isso normalmente é muito raro aqui na Antártica, mas dessa vez tive que contar muito. Este último grupo que saiu hoje, dia 23/12, foi o mais complicado em todos os anos de trabalho por aqui. Os passageiros eram tranquilos e amáveis, exceto por um grupo de 30 alunos de MBA em negócios da Universidade de Stanford, EUA. Arrogantes, estúpidos, grosseiros, infantis....acho que faltam linhas para definir as atitudes deles durante a viagem, com a maior falta de respeito pelos guias e pelos outros passageiros que viajavam juntos. Foi realmente um fato isolado, mas mesmo assim marcante. Não comentei antes simplesmente porque tentei deixar de lado qualquer preconceito, mas, não durou muito para que eu perdesse a paciência. O grupo da MBA estava fazendo a viagem para "estudar" impactos do Aquecimento Global (que por sinal eu acredito que não existe! e sim, uma mudança climática global) na economia. Porém, além das festas privadas e sem permissão, aprontaram muito, tanto em terra como no mar, muito além da arrogância típica de quem acredita apenas no próprio umbigo.
Por que eu estou escrevendo isso agora ? porque no dia de hoje foi a minha vez de andar na prancha. Eu tive que dar a palestra de "Mudanças Climáticas" e a atitude deles foi de agressividade total, salpicada de muita arrogância. Por um lado foi ótimo, pois a própria arrogância deles teve como consequência o sinal de reprovação do resto do grupo. De minha parte, ao contrário, fiquei bem tranquilo e minha atitude firme no defender das minhas idéias, baseado em tudo que aprendi até hoje, me garantiu uma posição ainda maior de respeito entre meus colegas, que me saudaram como um herói que ganha uma luta. Bem....página virada, foram embora, e agora eu tenho pela frente a última viagem minha, que com toda certeza será a mais tranquila de todas.
O dia de "Rock`n Roll" começou para mim as 6hs da manhã quando levantei para terminar de acertar o log da viagem e publicar no blog. Café da manhã tomado, parti para os finalmentes da minha apresentação, e pontualmente as 9h30 comecei. Infelizmente demorou mais do que eu gostaria e eu estava fechando tudo e correndo para colocar minhas roupas já por volta de 11hs da manhã. As malas dos passageiros já tinham partido e eu fiquei na função de taxi-boat para a praia. Depois segui com o grupo até metade do caminho e recebi os passageiros da Classica Antarctica 03 que estavam chegando. "Adios, amigos" foi a última coisa que falei para os poucos passageiros com quem fiz amizade nessa viagem: Um casal muito simpático de Brasilia, uma família da Flórida e uma outra família de indianos que vivem nos EUA. Também me despedi de Daniel, o montanhista da AXXI que estava saindo nessa viagem e sua esposa, Maria, que tinha se juntado a nós só nessa pernada. "Adiós, Daniel & Maria" - deixando muitas saudades.
Foto 1 Mike no bote No. 5 e eu no No. 6, prontos para Rock`n Roll.
Rock'n Roll time - passageiros, malas, vai e vem, vai e vem, e lá se foi a manhã rápida como um raio. Antes de sair pela última vez da praia em Frei ainda falei com o atual sub-chefe da estação brasileira Com. Ferraz, que estava na praia com mais alguns militares do navio de apoio submarinista "Felinto Perry", que estava em missão na Antártica para resgatar o barco afundado no ano passado de um brasileiro, o "Mar Sem Fim".
Zarpamos com pressa de Frei, e começamos a cruzar o estreito de Bransfield, rumo ao sul, rumo a um lindo fim de tarde entre nuvens pesadas do lado de fora da península, e um céu azul claro com tons de rosa do lado de dentro.
Foto 2. Panorama de Bransfield. Céu fechado à direita, por causa do Drake, e aberto na Peninsula, à esquerda.
Dia 25 (24/12/2012) - Feliz Natal Ocean Nova [Foyn Harbour & Curverville]
Acordamos cedinho como sempre nas imediações de Foyn Harbour nas ilhas Enterprise, e também com a sorte do nosso lado. O céu estava maravilhosamente azul e apenas sobre a calota de gelo no continente, cerca de uns 50 km de onde estávamos, podiamos ver uma cobertura de nuvens fluindo rápido. Foi engraçado pois alguns dias antes eu tinha colocado uma meia na porta, com pedidos para Papai Noel, e acordei com a minha meia cheia de chocolate. Obrigado Santa Dolores de Bariloche hahaha. Foyn harbour ainda estava coberta com bastante neve e conseguiamos ver apenas algumas das ilhas. Como era Natal, mudamos o visual e todos os pilotos de zodiac vestiam chapéu de Papai Noel. Tinhamos 67 passageiros a bordo e um bote avariado, da última vez que andamos em Paradise Bay, por isso, tinhamos que nos virar sem staff algum no bote. Eu carreguei 11 passageiros e parti para o meio das ilhas em busca de alguma coisa para ver. Demorou um bom tanto até avistarmos apenas um par de petréis gigantes sobre o gelo. Nenhuma foca e pouquíssimos pinguins. Andamos pelo meio das ilhas até chegar no naufrágio do barco baleeiro que está por ali encalhado desde o início do século 20 (se não me engano foi em 1916). Depositei mais um sensor e continuamos nosso cruzeiro, passando por pedaços de gelo cada vez maiores até encontrar grandes icebergs do outro lado da ilha. Fiquei surpreso com a parte mais rasa, com águas claríssimas e cheias de algas. Encontramos ali uma mancha enorme de krill - os pequenos animais como camarões, principal item alimentar das baleias, pinguins e algumas focas. Eu imaginava encontrar krill somente em lugares de mar aberto mas ali, com menos de 1 m de profundiade, verdadeiros enxames de krill nadavam entre as algas e pedras, relativamente protegidos de seus predadores.
Foto 3. Foyn Harbour e o naufrágio mágico
Voltamos para o navio para o almoço e logo nos movimentamos para a baia Willhelmina, onde pretendiamos encontrar o navio Akademik "Vavilov" (é assim que se pronuncia mas na verdade está escrito como "Bavilob"), que faria a carga de comida para o nosso barco e retiraria o lixo acumulado até agora. Porém, entramos por um lado da baia que ainda estava congelado e essa fina camada de gelo, mais a presença firme de icebergs grandes que travaram nossa passagem e acabamos por nos atrasar com o outro navio. Mariano acionou o plano B e eu entrei em cena - palestra sobre Mudanças Climáticas a bordo enquanto o resto da equipe ficava no vai e vem constante entre os dois barcos, trazendo comida e combustível, e levando lixo. Trabalho duríssimo ! que terminamos por volta das 16h30, muito além do tempo que prevíamos. Pelo menos foi compensado com chocolate quente no final, tomado no deck 5 do lado de fora, ao sabor do vento frio.
Foto 4. Fim de tarde em Curverville Island
Com isso tivemos que mudar completamente os planos e tocamos rapidamente para Cuverville, para um desembarque pós janta. E foi exatamente o que aconteceu. Tocamos os pés na ilha cheia de pinguins gentoo por volta das 8h30 da noite, ainda com sol, e meu termômetro marcando 13 graus. Uns 20 minutos depois o sol se pôs atrás da montanha que fica na borda do canal Herrera e entramos na sombra, fazendo a temperatura cair para apenas 3 graus. Impressionante ! Ainda assim curtimos o visual com cores diferentes na pinguineira e voltamos depois para o navio para descansar e finalmente dormir. Tentei falar com minha filha Mariana mas nada de conseguir ligação do satélite. Que ruim ! mas pelo menos conversei com a minha mãe.Feliz Natal...e nada de festa. Eu estava extremamente cansado para isso.
Foto 5. Feliz Natal Ocean Nova - e o Doutor Sérgio fazendo a festa
Dia 26 (25/12/2012) - Lemaire + Yalours Islands and Churrasco de Natal + Verdnasky e Wordy House
Navegamos a noite toda para chegarmos de manhã cedo na entrada do Canal de Lemaire, o que ocorreu por volta das 6hs da manhã, sob uma névoa espessa e muito gelo dentro do canal, dificultando bastante nossa navegação, mas ainda assim, uma experiência inesquecível para os passageiros. Eu desci para o café da manhã e tivemos nossa reunião habitual, onde definimos o próximo objetivo que eram as ilhas Yalours. Navegamos desde as 9hs da manhã entre canais estreitos de Yalours, entre pinguins adélie, cormorants e focas, para desembarcar rapidamente em uma das ilhas e ver de perto os pinguins e filhotes. Bem legal ! eu não conhecia esse pedaço e aproveitei bastante por ali. Como eu adoro pilotar bote, para mim foi meu presente de Natal.
Foto 6. Yalour Islands - acordei cedo só para pilotar o bote
Voltamos ao barco para um almoço-churrasco de Natal. Divertidíssimo ! além de tradicional, ainda rumamos en menos de uma hora para a frente da estação Verdnasky, onde tivemos que dividir o grupo em 3 partes pois a estação só comportava 20 pessoas. Fiquei de taxi-boat levando e trazendo passageiros para a estação e a ilha onde tem a casa de Wordy, para uma caminhada. Entre esses pit-stops eu ainda consegui apostar uma corrida de bote com Mike, que ganhou de mim por apenas alguns centímetros (Damm !). Depois de fazer umas 10 viagens, desci para Wordy e fui encontrar Sandra na porta da casinha que serve como museu. Ela estava visivelmente cansada, acho que do estress de coordenar a programação do barco nessa viagem, além do trabalho do dia a dia. Mas tudo bem - cabeça fresca e rir muito são bons remédios. Ajudei um pouco e logo fechamos a área para trazer os passageiros para Verdnasky. Foi realmente um vai e vem, que só terminou as 17h30. Voltei, tomei uma ducha, e cai na cama. Achei melhor matar a janta de natal para me recuperar e dormi por uma hora mais ou menos, o suficiente para me refazer para a festinha de natal no quarto de Ben e Pernille. Grácias Carlito - pelo presente: um boné verde do Ocean Nova. Eu já tinha dado os elefantes de tecido para meus amigos antárticos e agora só nos restava descansar. A noite ainda tivemos no bar o famoso "Antarctic Xmas Quiz" e a noite foi terminar sob música só lá pelas 3hs da manhã.
Foto 7. O famoso Churrasco Antártico
Dia 27 (26/12/2012) - Paradise Bay + Mergulho Gelado e Danco Island
Paradise Bay é um lugar mágico mesmo. O dia amanheceu tranquilo e com poucas nuvens no céu. Silencioso, o glacier Skontorp descansava estático na sua posição, mas ainda assim perigosa. As paredes de gelo se projetavam para frente meio que desafiando a força da gravidade. Zarpamos as 9hs para um cruzeiro na frente do glacier com o próprio navio, o que nos facilitou muito a vida. Desembarcamos logo em seguida em Brow Station, a base argentina ainda fechada, mas com os pinguins na volta em plena atividade. A caminhada até o topo da montanha foi espetacular. O sol expulsou as últimas nuvens e brilhou firme no céu azul. Fazia tempo que eu não subia até o topo da montanha, para sentir aquela paz e o sossego característico do topo das montanhas.
Foto 9. No topo de Paradise bay
A descida foi fazendo um tradicional sky-bunda pela rampa de gelo, e logo em seguida eu estava ali na praia ajudando os turistas a subirem nos botes e partirem para o navio. Tudo ia bem até que Mariano disse no último bote: "Andre, agora só voltamos para o navio depois que vc nadar !". Bem...eu já estava esperando isso. Como era minha última viagem eu já estava preparado para cair na água em algum momento. Só não sabia quando. Tirei a roupa pesada e fiquei só com a primeira camada - short e uma blusa fina. Esperei o doutor Sérgio (que também está partindo comigo no próximo vôo) e pulamos na água geladíssima da baía Paraíso, meio que fedendo a krill ou a cocô de pinguim. Porém o cheiro desaparece no mesmo instante que seu cérebro descobre a fria que seu corpo está entrando. urra ! (e milhões de palavrões em chileno e português), saímos da água alguns segundos depois que entramos. Voltamos rápido para o navio e eu ganhei uma ducha quente. Que delícia.
Foto 10. Na praia congelada de Danco Island.
A tarde, logo depois do almoço, descemos em Danco Island, uma ilha enorme com um platô bem definido bem no meio do Canal Herrera, com uma pinguineira de gentoos bem barulhenta. Eu segui a trilha principal com Loli e Mike, e depois de uns 20 minutos lutando contra a neve da subida chegamos ao platô da ilha, com uma visão de 360 graus ai redor. Maravilhoso ! Um pouco de sol, o suficiente para aquecer a pele, e muita neve ainda, o suficiente para tornar a caminhada bastante difícil. Tomei meu tempo no platô e só comecei a descer uma meia hora antes de partirmos. Descida tranquila, até deu para fazer outro ski-bunda na neve. Vimos ainda alguns icebergs, uma minke xereta que passou bem perto da praia e várias focas de Weddell. Voltamos para o barco depois de mais de duas horas em terra, com um magnífico jantar (Mahi-Mahi - um peixe do pacífico) e a palestra de Mike sobre a experiência dele a bordo de um Yatch, rastreando baleias.
Foto 11. Por do Sol no estreito de Bransfield
E o dia terminou com um pôr de sol magnífico no estreito de Bransfield. Fiquei até pelo menos meia-noite no deck 5, do lado de fora, mesmo com o frio, pois as cores do céu em contraste com as montanhas ao longe estavam simplesmente magníficas. Ainda fiquei meio acordado meio sonolento na cama até 3hs da manhã. Eu sabia que isso ia me custar um pouco de fôlego no dia seguinte, mas simplesmente não consigo controlar meu sono, se ele vem ou se ele vai.
Dia 28 (27/12/2012) - Deception island & Half Moon
Acordei as 6hs da manhã, ainda cansado de uma noite mal dormida. Mas vale tudo por aqui, e sei que tenho o ano todo para dormir bem e quem sabe até passar o dia todo na cama. Então o melhor é aproveitar o tempo que tenho, dormir o suficiente, comer o suficiente. Desde o dia 23 de dezembro também estou sem tomar nada alcólico. Nenhuma promessa...apenas decidi não tomar nada. O mesmo com a comida - tenho diminuido a quantidade sem passar fome, e a folga no cinto da calça só tem aumentado.
Aqui em Deception nosso destino era Telephon Bay, no fundo da ilha, dessa vez sem gelo. Caminhamos por uma hora e meia até a borda da cratera que se formou ali na última erupção, em 1969-70. Lugar inóspito mas incrivelmente belo, mesmo em duas cores - o preto das rochas e o branco da neve se misturando. Na volta, fizemos o tradicional "Polar Plunge" e como é meu último dia na Antártica, decidi entrar na água também. Gelaaaaada mas refrescante para a alma. Foi divertido, isso que importa.
Foto 12. Polar Plunge em Deception. Foto de Sandra Walser.
Voltei para o barco correndo para tomar um banho quente e logo depois uma soneca básica. Essa última semana tinha acabado comigo. Logo no início da tarde, partimos para o último desembarque, em Half Moon, já com o pé em Frei. O tempo estava cinza e o teto super baixo, com nuvens escuras e pesadas, mas mesmo assim não caiu um floco sequer de neve. Half Moon foi super tranquilo, desembarque mais do que normal, sem grandes sustos. Eu voltei no primeiro bote ainda para terminar meus afazeres aqui, e me preparar para o momento mais difícil de todos - arrumar minhas malas.
Foto 13. Controlando o trânsito em Half Moon. Foto de Sandra Walser.
Agora, navegamos tranquilamente para Frei e logo mais a noite estaremos chegando por ali, para aguardar o vôo pela manhã. Sei que será uma noite de despedidas, e sei que terei que aguentar bem isso. O coração bate mais forte quando penso em deixar Neverland. Difícil explicar essa sensação, mas imagino como se sentem os pinguins, focas e baleias, que sabem que tem que partir de qualquer forma pois é impossível morar aqui no inverno rigoroso, mas acho que talvez eles vão tranquilos para o norte, sabendo que voltarão no ano seguinte. Então....até amanhã...até o vôo.
Fantásticas fotos e relatos, parabéns pelo trabalho!
ResponderExcluirDaniel Belém
Muito Obrigado Daniel :)
Excluir