domingo, 23 de dezembro de 2012

Heroica Antarctica 02

Dia 19 (18/12/2012) - Rock`n Roll Day - troca de passageiros


7h00 da manhã eu já estava de pé e pronto para a luta. Rock`n Roll day ! No café da manhã Mariano passou as instruções e eu zarpei logo no segundo bote de bagagem, passando bem pertinho do navio "Almirante Maximiliano", da Marinha do Brasil, que também iria fazer descarga de material e pessoal. Na praia alguns brazucas aguardavam o bote deles - engraçado, não senti saudades alguma dos tempos do PROANTAR. Hoje vejo a operação de troca de passageiros cansativa, mas não complicada. Trabalhamos super bem nisso. Mas quando vejo que o PROANTAR ainda usa o mesmo método de sempre (bote, passageiros, carga, andainas, caminhar na pista, aguardar o vôo, etc etc etc), realmente não sinto saudades desse tempo.



Foto 1 Grupo novo chegando no BAE, na área Charlie.


Descarregamos as malas na van e fui para a área Charlie, onde o avião estaciona para desembarque de passageiros, e logo na chegada já avistamos o hércules brasileiro sobrevoando a ilha. Aparentemente eles iriam desembarcar primeiro. Acompanhei a descida do avião e ao longe, vimos o nosso avião, um jato BAE inglês, se aproximando da ilha pelo outro lado. Ia ser apertado. Mal o Hércules brasileiro estava entrando na área Charlie, o BAE estava em descida para pouso. O intervalo entre os aviões foi de menos de 5 minutos. A turma que desembarcou era bem diferente do que tinhamos experimentado nesses últimos dias. Um grupo grande de Stanford (MBA em negócios) com mais de 25 pessoas, uma mistura de casais europeus e americanos, um casal de brasileiros e uma familia inglesa. Todos bem comportados. Em menos de meia hora começamos o vai e vem de passageiros e carga, e dessa vez eu acabei ficando ao lado do avião para ajudar com os chineses que estavam partindo e bagagem que estava chegando. Fui aportar no navio mais de duas horas depois, bastante cansado de carregar malas. Pegamos ainda o final do almoço e depois disso fui tirar uma soneca básica.


Essa viagem tem a denominação de Heroica Antarctica 02 porque vamos fazer a rota dos tempos heróicos atravessando pelo Antarctic Sound na ponta da Península para dentro do mar de Weddell, se as condições de gelo permitirem. Apesar do 02 no nome, esta era a primeira vez na temporada que a AXXI estava fazendo essa rota, já que a HA01 tinha sido cancelada exatamente pelas condições de gelo no mar de Weddell. Não tinhamos muita esperança de entrar tão a fundo por ali. Começamos imediatamente a travessia do estreito de Bransfield, entre a ilha Rei George e a península e o navio começou a rolar um pouco, apenas um pouco, mas o suficiente para colocar a nocaute metade dos passageiros. A tarde foi tranquila até demais e a janta praticamente vazia. Tivemos o coquetel de boas vindas com apenas meia duzia de sobreviventes, e assim começamos o dia 01 da HA02-Rock`n Roll.



Foto 2 Visão multicolorida de Antarctic Sound com a lua se pondo no horizonte.


Lá pelas 22hs já estavamos entrando nas imediações da ponta da península, e vários icebergs gigantes começaram a aparecer. Esses icebergs vem de dentro do Mar de Weddell e são capturados pela corrente contrária que passa pelo gap entre a península e a Ilha Joenville. O sol estava se pondo maravilhosamente laranja, sob um céu azul profundo e começaram a aparecer as primeiras almas reestabelecidas, já que o balanço do navio praticamente parou quando chegamos mais perto da península. Mais e mais icebergs apareciam e o cenário foi ficando multicolorido, cheio de gelo, pedaços de mar congelado, blogos imensos como prédios, o céu alaranjado atrás dos glaciares e zero de vento. Fui dormir a 1 h da manhã e o meu dia iria começar bem cedo, mas valeu a pena ficar acordado e acompanhar esse espetáculo.


Dia 20 (19/12/2012) - Rota Heroica - Antarctic Sound e a ponta da Peninsula


Quando Mariano entrou no sistema de som para dar o Bom Dia Ocean Nova as 5h30 da manhã, eu já estava acordado, no Panorama Lounge e tomando um café quente e comendo um croassaint. Nosso destino era Brown Bluff, uma praia encravada no meio de uma geleira, com mais ou menos 100.000 pares de pinguins Adélie, barulhentos e ativos. Na praia não tinhamos muito espaço e tinhamos que ter o maior cuidado para andar por ali e não perturbar a paz dos pinguins, se bem que a barulheira da colônia não pode ser definida exatamente como um lugar silencioso. Ficamos das 6hs as 8hs por ali, entre pinguins, alguns gentoos e milhares de adélies, andando de um lado para outro na praia. A manhã estava fria, e o mar tinha uma fina camada de gelo formado durante a noite. Vento absolutamente zero e céu azul com sol. Convidativo demais e irresistivel para alguns. Primeiro foi um russo que tirou a roupa e se atirou na água gelada da praia, seguido por mais uma boa meia dúzia. Fiquei com inveja, mas eu estava trabalhando e não dava para entrar na água naquele momento.



Foto 3 Pinguins na praia de Brown Bluff.


Voltamos para o barco para um longo e quente café da manhã, seguido de uma palestra de Daniel sobre a Antártica, enquanto o navio rumava para leste, até encontrar pedaços bastante grandes de pack ice, o mar congelado do último inverno que se quebrava em placas enormes derivando nas águas de Antarctic Sound. Esperávamos encontrar pinguins e focas, mas na verdade só viamos gelo e mais gelo a perder de vista. Ficamos na área procurando sinais de vida polar por mais ou menos duas horas, até que chegamos a um ponto onde começou a ficar perigoso avançar mais com o navio, correndo o risco de ficar preso no meio do gelo. Ninguém ali queria dar uma de Shackelton. Demos meia volta e rumamos para oeste novamente, para a ponta da Península, onde nosso objetivo era entrar na Ilha Gourdin, a terra perdida dos pinguins.



Foto 4 Gelo marinho a leste de Antarctic Sound.


O cenário era no mínimo de filme. Um recife de rochas vulcânicas alto formou canais ao redor da ilha e cada pedaço de pedra, mesmo que mínima estava coberto com uma camada grossa de mais de um metro de neve. Como a maré alí sibre mais de 2 metros, haviam várias cavidades por baixo da camada de gelo e neve, e que com a baixamar que estávamos, formavam espaços estranhos entre o mar, a rocha e a neve por cima. E sobre a ilha, centenas de milhares de pinguins adélie, gentoo e chinstrap, todos absolutamente juntos. Não havia organização aparente, e parecia que eu estava entrando em uma estação de trem cheio de gente de paletó (os pinguins), correndo de um lado para o outro. Essa era literalmente a terra dos pinguins. Foi muito difícil achar um caminho seguro (para os pinguins), entre os ninhos que simplesmente se multiplicavam entre cada pedaço de rocha exposta. Incrível ! Passamos mais ou menos duas horas naquela ilha maluca. Eu ainda andei até o outro lado da ilha, onde uma geleira enorma desemboca suavemente no mar. Mesmo assim, o ponto mais alto da ilha e ainda assim, cheio de pinguins.



Foto 5 A Terra dos Pinguins em Gourdin Island.


Voltamos para o navio no final do dia, cansados mas bastante satisfeitos com mais uma visita em um lugar espetacular como esse. Hora de dormir - sonhando com essa imensidão branca e os milhares de pinguins. Estávamos rumando sul para Cierva Cove, na parte central da península.


Dia 21 (20/12/2012) - Cierva Cove, Portal Point e Churrasco


Acordei bem pela manhã, disposto e com vontade de sair do barco para passear um pouco. Na verdade, acordei meia hora mais cedo do que o Wakeup Call do Mariano e fui circular pelo navio. Nossa programação da manhã incluia um passeio de zodiac pela baia Cierva, a meio caminho entre a ponta da península e o sul. E foi o que ocorreu. As 9hs eu já estava pulando dentro de um bote e partindo com 10 passageiros para o interior da baia completamente congelada. O mar estava qualhado de pedaços pequenos de gelo e isso fez com que andássemos bem devagar. Circulei por mais de uma hora para dentro da baia sem ver um único animal. Só na volta, quase 11hs da tarde, é que encontramos uma foca adormecida sobre uma placa de gelo. Foi o único ponto alto do passeio. Voltamos ao barco para o almoço, já navegando rumo sul para Portal Point. Eu aproveitei que estava vestido com roupas quentes e fiquei ainda um pouco do lado de fora, curtindo a vista, o sol, e a imensidão do estreito de Gerlache.



Foto 6 Foca preguiçosa em Cierva Cove.


Incrivel ! tenho a tarde livre e nem sei muito bem o que fazer. Mariano instituiu um "Free Time" para cada um de nós, de tempos em tempos. Dormi um pouco depois do almoço e depois fui tomar sol enquanto o navio silencioso ficou fundeado na frente de Portal Point. Ao longe eu via a fila de turistas subindo o glacier. Aproveitei para escrever um pouco e ainda tomei um chocolate quente, pois embora agradável, o vento frio dava a opção de tomar algo quente.



Foto 7 Tarde livre em Portal Point.


Lá pelas 5 hs da tarde os passageiros começaram a retornar, principalmente porque o vento estava quebrando todo o gelo marinho do fundo da baia e espalhando várias peças por volta do navio. Estava ficando cada vez mais complicado de fazer o translado de bote da praia para o navio e rapidamente todos estavam a bordo antes que ficasse perigoso demais. Eu via o movimento só do navio, já que ainda estava dentro do meu Free Time. Lá pelas 5 hs da tarde começou o vai e vem dos botes e eu já estava devidamente vestido e aparatado para o churrasco. É o nosso dia de vestir livremente roupas que não sejam nosso uniforme de trabalho. Difícil, pois eu não tenho muito mais coisa na minha mala. Sol e mais sol, um pouco de vento mas pouco, e muito gelo ao redor do navio. E não é que apareceu uma foca xereta tentando chegar perto do navio ?! perto até demais pois ela literalmente "cheirava" o casco. Maluca !


Zarpamos dali as 19 hs e mal começamor a navegar, avisamos duas baleias jubartes comendo krill, abrindo as grandes bocas e dando verdadeiras golfadas com água cheia de krill. Chegamos perto, mais perto, pertíssimo, perto demais ! e desligamos o motor, e não é que as duas baleias xeretas ficaram investigando o navio ? Uma delas chegou a querer empurrar casco do barco, de tamanha curiosidade. Não preciso nem dizer quantas fotos foram tiradas ali: milhares ! A coisa que eu mais ouvia era o barulho do disparo das cameras. Ficamos por ali olhando esse hábito estranho por mais de uma hora, mas o tempo começou a ficar apertado e tocamos adiante, deixando as baleias para trás. Maginífico.



Foto 8 Foca intrusa no churrasco.


A noite ainda teve o Quiz do Ben Jackson e do Doutor Sérgio, junto com uma festa meio fantasia, ou seja, estilo praia. Vesti minha bermuda xadrez, uma camiseta laranja, e parti para a festa. Fui dormir lá pelas 1h30 da manhã, mas sei que o festerê rolou até umas 4 hs. Haja fôlego !


Dia 22 (21/12/2012) - Neko harbour, Polar Plunge e Gordon Point


Acordamos em Neko no horário de sempre: 7h30. Café completo tomado e preparado para dirigir. Minha função hoje pela manhã era de taxi-boat, coisa que eu adoro fazer.Fizemos a foto do grupo logo que chegamos na praia e dai foi subir e descer a geleira ao redor da pinguineira de Neko Harbour sob um céu azul profundo e temperaturas bem acima de zero. Meu termometro marcou 26 graus junto ao meu corpo, mas as medidas longe de qualquer fonte de calor mostravam que o ar estava quente - de 6 a 11 graus. Para variar o grupo de garotões de Stanford abusou um pouco. 3 deles simplesmente tiraram a roupa no topo da geleira, só para posar nú para uma foto e colocar no facebook (para a alegria das meninas). Tem gosto prá tudo ! Descemos depois de duas horas e fomos direto para o Polar Plunge - a atividade mais concorrida da viagem antártica. Tivemos mais ou menos uns 45 mergulhadores malucos caindo na água dessa vez. Foi divertido - e gelado. Eu trabalhei como de costume na linha salva-vidas, ficando mais molhado do que seco com o vai e vem de turistas ensopados.



Foto 9 Eu, Sandra e Carlos em Neko Harbour.


O almoço foi curto e mal eu tomei meu cafezinho pós comida, já estava me arrumando para mais um desembarque. Nosso ponto era George Point, na Ilha Rongé. Lugar maravilhoso - amplo espaço, vários pinguins e uma caminhada excelente pelo glaciar. Incrível !A vista é magnífica e deu para curtir um bom par de horas sob o sol quente antártico, um vento persistente mais geladinho e o céu azul. No horizonte já haviam algumas nuvens, mas no geral, o tempo estava absurdamente incrível.


E foi assim que terminou mais uma viagem pela península. Rumamos para Deception a baixa velocidade pois nosso compromisso ali seria apenas de manhã cedo. Lindo final de dia em Gerlache, navegando entrea península e as ilhas, em uma mistura de branco da neve, azul do céu, azul profundo do mar e o preto das rochas expostas, apesar de poucas.


Dia 23 (22/12/2012) - Deception Island e Half Moon Island


Quando Mariano acordou o navio as 7h00 da manhã eu já estava de pé, montando minha câmera do lado de fora do deck 5, para filmar a entrada do navio na ilha Deception. O mar estava super calmo e sem vento, e mais uma vez o céu estava limpo e com sol. Desembarcamos na ilha Deception as 9 hs da manhã e praticamente todo o grupo seguiu para a face sudeste de ilha, na parede interna do vulcão, onde o visual é maravilhoso. Caminhamos por mais ou menos uma hora, e o tempo começou a mudar levemente. Nuvens mais pesadas apareceram no horizonte e um ventinho gelado subia as paredes externas da ilha e nos esfriava um pouco. Mesmo assim, foi uma caminhada super tranquila e cheia de visual. Deception tem uma magia especial, por ser um vulcão talvez, ou pela paisagem quase que de um outro planeta. Um pouco antes de encerrarmos o passeio, apareceu um pequenino veleiro entrando pela abertura da ilha. Fui ao encontro deles com o meu bote e descobri que eram 4 australianos e uma inglesa que tinham acabado de atravessar o estreito de Drake. Estavam entrando em Deception para descansar da travessia dura de 5 dias.



Foto 10 Paredão de Deception. Vista magnífica.


Então veio o almoço e o navio se movimentou de Deception para a ilha ao lado, Livingston. Na verdade, desembarcamos as 15 hs em uma pequena ilhota na enseada leste chamada Meia Lua, ou Half Moon, já conhecido nosso de outras viagens. Desembarque tranquilo de 2 horas, minha função foi de controlar o tráfego de passageiros próximo a principal highway de pinguins, na metade da ilha. Sem muito esfoço, aproveitei o momento para relaxar e observar os pinguins, alguns, curiosos, chegavam até quase o meu pé. Outra coisa incrível é também a mudança na neve. Fazia menos de uma semana que haviamos estad ali e a cobertura de neve tinha diminuido pela metade. Provavelmente na próxima vez já veriamos filhotes nos ninhos e quase mais nada de neve. E é assim que funciona tudo por aqui, rápido e dinâmico.


Voltamos para o navio as 5h30 e tive apenas poucos minutos para um banho e trocar de roupa. Iniciamos as festividades de despedida do grupo enquanto o navio se reposicionava na frente da estação chilena na baia Fildes. Eram 22 hs quando meu celular vibrou e captei o primeiro sinal de civilização. Mas já era tarde e ainda estava rolando a festa de despedida. Fui dormir tarde, mas com a missão de logo cedo pela manhã atualizar esse diário.


E agora...6hs da manhã do dia 23/12, estou aqui terminando essas linhas. Já sei que haverá vôo e mais uma vez zarpamos para o sul, para a minha última pernada de viagem, meu Natal fora de casa e meus últimos dias em Neverland. Então...até daqui a 5 dias.


terça-feira, 18 de dezembro de 2012

"Chinese" Classica Antarctica 03

Dia 15 (14/12/2012) - ...aguardando ainda em Frei e troca de passageiros


Minha última entrada nesse diário tinha sido logo depois do café da manhã sem saber muito bem o que iria acontecer, mas dai veio a notícia de que haveria vôo logo depois do almoço. A parte da manhã foi preenchida de trabalho com palestras, filmes, e um vem e vai de gente querendo usar a internet e telefone para acertar suas respectivas passagens para fora da "Neverland" Antártica. Engraçado esse nervosismo todo. Sei que muitos tem compromissos, mas acho meio falta de planejamento marcar vôos tão em cima das datas de sair daqui. Afinal, o tempo muda de uma hora para outra e ficar preso por aqui é algo bastante simples.


Logo depois do almoço começamos juntar todas as bagagens e zarpamos em dois botes para a praia, para desembarque de carga. Eu, Daniel e Mike em um bote, Joho, Ben e um marinheiro do navio em outro. Na praia, muito esforço para carregar nosso transporte, com mais ou menos uma tonelada de carga. Dai subimos para a pista com alguns passageiros mais idosos e com dificuldade de caminhar e o resto do grupo subiria com os outros guias.



Foto 1 Voo BAE da DAP trazendo os novos turistas.


Demorou mais ou menos duas horas até que o vôo chegasse e pousasse perto de nós, quase tudo pronto, tranquilo, calmo...mas de repente veio a avalanche. Um verdadeiro tsunami de chineses desembarcando, ruidosos, barulhentos e sem entender uma única palavra em inglês. Esse era o grupo da Clássica Antártica 03 - 61 chineses e um casal chileno (que trabalha na China). Foi um verdadeiro sufoco mas conseguimos juntar todos em um canto. Dessa vez o problema era que a pista não podia ser cruzada a pé. Portanto, precisamos fazer pelo menos 4 viagens com a nossa van de transporte mais um outro caminhão para trazer todos os passageiros (e levar os novos) para fora da área de estacionamento do avião, que nada mais é do que um espaço a céu aberto com neve por todos os lados.


A despedida do grupo que ia embora até que foi emocionante. Adeus, abraços, beijos....é bom sentir esse carinho quando um grupo vai embora porque significa que gostaram e que tive um papel importante na vida deles durante a viagem. É realmente reconfortante.


Embarcamos depois de meia hora com os botes ao navio e zarpamos imediatamente para o sul, para cruzar o estreito de Bransfield. O resto da noite veio com jantar e coquetel de boas vindas, que na verdade se transformou em uma verdadeira zona ruidosa mais uma vez porque os chineses tinham bebido "todas" e estavam muito felizes. A única coisa que conseguiamos falar, nós guias, era o nome e de onde eramos. O resto era só gritaria. Coloquei música de discoteca (Macarena) no computador e fui dormir, mas soube depois que o dancing club Ocean Nova funcionou até as 2 horas da manhã.


Dia 16 (15/12/2012) - Mid Trip ! Orne Island e Port Lockeroy + Lemaire a noite.


Acordei bem hoje, com fome de um bom café da manhã mas sinceramente querendo aproveitar meu café sozinho. Mal entrei no salão de jantar e meus ouvidos já estavam zunindo com a barulheira que os chineses estavam fazendo. Encontrei o esperto Doutor Sérgio saindo e aprendi com ele - amanhã vou acordar mais cedo e tomar meu café antes de todos. Hoje é Mid Trip para mim, e por tradição vou fazer a barba a noite.



Foto 2. Antes, durante e depois de fazer a barba.


O desembarque em Orne Island foi conturbado. Descemos as 10h30 com o ruidoso grupo de turistas chineses e foi preciso muita paciência para controlar todos. Foram mais ou menos 1h30 de caminhada e um tanto estressante, mas ao final todos se salvaram. Abrimos o gift shop logo depois do almoço e eu aproveitei essa uma hora e pouco para tirar uma rápida soneca. Valeu a pena.



Foto 3 Iceberg com um furo e o navio atrás.


E então, veio o tão esperado momento - Port Lockeroy. A base A inglesa da década de 50 ainda original e super bem preservada contém um museu e um pequeno shoping de lembranças (estupidamente caras !) dos ingleses. Florence, Ben, Flo e Kath cuidam do local e vivem por 6 meses espartanamente em uma ilha pouco maior que um campo de futebol, tendo como vizinhos uma boa centena de pinguins gentoos. A ilha fica em uma enseada abrigada com um glacier ao fundo, e uma das pontas de rocha exposta onde outra pinguineira gigante de gentoos é instalada todos os anos. Esta ponta chama-se Jugla Point e protege Alice Creek, um porto natural para veleiros que passam por ali, mas que agora estava vazio e tomado de gelo marinho. Mas é um local que eu tenho um carinho muito especial e onde eu gostaria seguramente de passar o inverno.


Fui designado para Jugla com Pernile, Joho e Rodrigo Tapia, novo integrante do grupo que chegou agora, e passamos uma hora e meia por ali com mais ou menos 35 turistas. Logo depois atravessei de bote para a ilhota de Port Lockeroy e falei rapidamente com o pessoal de terra. Tirei várias fotos para os amigos e vi uns livros interessantes. Quem sabe da próxima vez a gente fica mais tempo por ali.



Foto 4 A bela e doce Port Lockeroy.


Voltamos para o barco debaixo de um vento frio e forte anunciando uma nevasca que veio com força por volta da hora da janta. Nosso objetivo era cruzar o canal de Lemaire e foi o que fizemos, mas era impossível enxergar mais de 10 m além da proa do barco. Paramos logo na saida do canal de Lemaire, em Plenneau Bay, e ancoramos. Fiquei no bar até umas 11 hs jogando conversa fora com os meus colegas e fui dormir...cansado, mas de certa forma feliz. Afinal, hoje é Mid Trip para mim :)


Dia 17 (16/12/2012) - Paradise Bay e Ohrne Harbour


São 6h00 da manhã. Nem deixei o despertador tocar duas vezes, mas ainda demorei enrolando um pouco na cama. Eu aproveitei a data marcante de Mid Trip para "tentar" entrar nos eixos, aproveitando o embalo de diminuir a comida, que eu já estava executando a uma semana. Na primeira semana eu comi demais aqui e acho que engordei muito. Então, a solução era fechar mais a boca. Por outro lado, apesar de estafante, o esforço que fazemos durante os desembarques não pode ser considerado exerçício físico. Então, hoje eu comecei a remar por 15 minutos. Calma ! não é remar no mar gelado (se bem que eu adoraria), e sim em uma máquina no ginásio do navio.


Logo depois subi para o Panorama Lounge, o nosso "bar" e salão de convivência, e para minha surpresa mais da metade do navio estava acordada. O navio coloca croassaints e paezinhos doces com café e chá, o chamado "Early Bird" na mesa do salão, e eu vim caçar comida. Mas já tinha tudo praticamente desaparecido da mesa. Consegui me safar com um pão doce e chocoexpresso.



Foto 5 Dirigindo e cruzeirando entre as paredes geladas de Skontorp..



Foto 6 Eu coberto de neve.


O tempo estava muito ruim com neve e vento em Paradise Bay, mas mesmo assim descemos os botes e peguei um grupo de 10 chineses rumo a Skontorp, o maior glacier da área. Sandra me seguiu e em dupla exploramos o fundo da cova de Skontorp onde alguns veleiros costumam parar para fundear e descansar. A cova estava vazia, mas com algumas peças de gelo flutuando. Em uma delas encontramos duas focas caranguejeiras e meia dúzia de pinguins. Com a neve e o vento, o glaciar Skontorp estava silencioso. Na volta, navegando rápido em direção a base Almirante Brown (em Paradise), fiquei todo coberto de neve e o frio não dava trégua. A única coisa que me deixava confortável era o nível de adrenalina alto no sangue, resultado de navegar rápido com o zodiac. Fizemos uma parada rápida na base vazia (e cheia de pinguins) e os turistas aproveitaram para descer de esqui-bunda uma rampa de gelo que tem por ali. Eu não via a hora de voltar a bordo, o que aconteceu as 10h30 para desfrutar de um Brunch (Breakfast + Lunch). Até deu tempo de tirar uma rápida soneca antes das 14h00 quando descemos em Orhne harbour, debaixo de um vento cortante com muita neve.



Foto 7. Abrindo o caminho para o "Gap"de Orhne Cove.


Daniel, Johnatan, Rodrigo e eu subimos rapidamente a encosta já com uma espessa camada de neve, e montamos a trilha para os turistas. Ficamos mais ou menos duas horas por ali, congelando, mas tudo bem, pois até consegui recuperar meu sensor de temperatura. Da última vez que eu estive ali, procurei em vão e não tinha encontrado. Na verdade, eu tinha passado por cima dele mas não reconheci o local. Dessa vez levei uma foto comigo e facilmente achei a rocha com o sensor em uma fenda. Troca feita, desci rapidamente a costa para fazer o meu trabalho de taxi-boat. Terminamos a operação as 17h00 e fui direto para o banho quente...ahh que delícia. E que bela surpresa, sai para o deck 4 para o antarctic barbecue e tive a grata surpresa de um sol aparecendo entre as nuvens. Foi ótimo ! sol, churrasco e vinho quente, não poderia pedir mais. Tranquilamente desfrutamos daqueles momentos, descansando e assim que terminou desci para o deck 2 pois eu tinha que mudar de quarto. Até o momento eu estava dividindo com Daniel mas a esposa dele está chegando na próxima viagem e eu mudei para o quarto ao lado, pequeno mas confortável (e eu sozinho, é claro !).


Além disso, passei o tempo todo no deck 2, na sala de jantar (rancho) da tripulação, para comemorar o aniversário de Rex, o chefe dos camareiros da tripulação. Parabéns Rex ! E rolou karaoke, regado a vinho e comida típica filipina (extremamente apimentada !!) até mais ou menos meia noite. Fui dormir tranquilo, enquanto o Ocean Nova navegava também tranquilamente pelo estreito de Bransfield, atravessando para ilha Deception, nosso objetivo para o dia seguinte.




Foto 8. Eles não podem ver um microfone que já começam cantando.


Dia 18 (17/12/2012) - Deception and Yankee


O dia começou cedo para mim. Acordei as 6h00 já sem sono e com um pouco de fome. Só esperei o "Wake up call" as 6h30 para correr para o café da manhã. Ahh como é bom tomar café cedinho sem o burburinho dos passageiros. Não demorou muito apareceu o doutor Sérgio e outros membros do Staff, e logo mais as 7h00 todos os passageiros desceram juntos. Estávamos entrando pelos "Foles de Neptuno", a estreita entrada de Deception Island. A idéia era ir até o fundo da baía, Pendulum Cove, para nadar mas uma espessa camada de gelo ainda cobria toda Telephon Bay onde está Pendulum Cove. Mesmo espesso, o gelo já apresentava falhas com várias poças de degelo. Por isso, marcamos um perímetro ao redor do barco e descemos todos em um corredor para tirar uma foto no meio da neve. Foi legal ! Fizemos uma grande roda, eu filmei no meio e todos correram para onde eu estava depois de algum tempo. É uma roda tradicional no pólo norte e repetiram aqui.



Foto 9. Pendulun cove, Deception Island


Mas o tempo corria e em menos de uma hora já zarpamos de Deception rumo a Ilha Greenwhich, para Yankee Harbour. Demos uma paradinha rápida logo depois de sair de Deception para observar um evento interessante: várias baleias jubartes na área estavam fugindo de uma gangue de Orcas. Não vimos exatamente a caça, pois assim que chegamos as orcas saíram da área, e as jubartes ficaram navegando perto do navio, talvez procurando um pouco de proteção...mas tudo isso um talvez. Infelizmente não podiamos ficar muito tempo ali pois tinhamos que chegar em Yankee Harbour antes das 14hs.



Foto 10. A praia de Yankee.


O vento subiu bastante e apesar do sol, chegamos perto de Yankee por volta das 12h30 com mais de 30 nós de vento (60 km/h mais ou menos). Mesmo assim desembarcamos pelo lado protegido do navio e encaminhamos o grupo para a pinguineira de Yankee. Eu fiquei no meio do caminho pois queria começar a caminhar na outra direção que eu acho mais interessante. Lá pelas 14hs iniciamos a caminhada até a ponta desse porto natural, onde vários elefantes marinhos estavam descansando e tomando sol na praia. Até que eles ficaram calmos, mesmo com a algazarra que os chineses fizeram. Encontramos também algumas focas de Weddell bem preguiçosas. Nem para a foto elas quisetam posar. Hora de voltar, descemos ali mesmo na ponta com os botes e fizemos travessias curtas, de mais ou menos 5 minutos, sob ondas e vento. Eu fiquei no último bote, e apesar de parecer ruim no começo, até que foi bastante tranquilo chegar até o navio. Só me molhei um pouco.



Foto 11. Foca dorminhoca !


Voltamos para o navio e deu ainda para tirar uma soneca de meia hora. Nosso coquetel de despedida estava marcado para as 18 hs e tudo correu como planejado. Ainda de quebra, entrando na baia Fildes, passamos pelo navio da marinha do Brasil, "Almirante Maximiliano".



Foto 12. Almirante Maximiliano saindo da baía Fildes, na Ilha Rei George.


Depois da janta (rápida) ainda desembarcamos por 2 hs na estação chinesa Great Wall, enorme, com quase 300 pessoas e que opera verão e inverno. Mas fiquei só do lado de fora porque sinceramente, achei grande demais. Observações estéticas a parte, pelo menos fiz um bom passeio. Agora, vou postar esse texto e ir dormir...amanhã é Rock Time já as 8hs da manhã, quando vou desembarcar para verificar o estado do caminho entre a praia e a pista de pouso em Frei.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

...esperando o vôo em Frei

Dia 14 (13/12/2012) - Aguardando em Frei (e visitando Ardley Island)...


Realmente o nevoeiro estava bastante forte. Na verdade, dia 13 pela manhã estava nevando forte e ficamos em standby esperando alguma notícia de Punta Arenas sobre o vôo para retirar esses passageiros daqui e trazer mais um grupo. O plano A nesse caso foi uma visita a pinguineira de Ardley Island, menos de 1 km a sudoeste de Frei, apenas 5 minutos de bote do nosso ponto de ancoragem.



Foto 1 Pinguins Adélie com pequenos filhotes de 1 semana de idade em Ardley


Eu desci no primeiro grupo abrindo a trilha que simplesmente consiste em andar pela borda da praia evitando algum pinguim descansando até o final da ilha onde tem uma pinguineira com Adélies e Gentoos. Para minha surpresa, vários dos ninhos já apresentavam filhotes, de mais ou menos 1 semana de idade. Mesmo com a neve caindo e pouca visibilidade (e muitoooo frio), valeu a pena fazer essa visita para eles. Fiquei mais ou menos uma hora por ali até que veio o chamado pelo rádio: "baleiaaa"! e corremos para a praia porque quatro jubartes estavam nadando na volta do navio. Pulei para dentro do bote e peguei meu grupo de turistas e lá fomos nós à caça dessas baleias (fotograficamente falando). Com eu estava dirigindo e a visibilidade era ruim, deixei para eles (os turistas) tirarem as fotos, mas valeu passar pertinho pertinho desses animais lindos.


E veio o almoço, e logo depois uma sonequinha merecida de 1 hora, pois ainda tinha muito trabalho pela frente. Com o atraso do vôo, praticamente todos os passageiros tem que trocar itinerários e normalmente ajudamos com telefone+internet para isso. As 17 horas desembarcamos na estação russa de Bellingshausen, debaixo de uma capa fria de névoa com visibilidade menor que 20 metros. Eu pilotava um dos botes, de olho na bússola e de olho na frente para não bater em nenhuma pedra. Foi um passeio de mais ou menos 2 horas e ainda consegui visitar minha capela preferida aqui - uma igreja ortodoxa russa, construida uns 8 anos atrás com madeira vinda da sibéria.



Foto 2 Vista interna da capela ortodoxa em Bellingshausen


E assim foi até as 19 horas trabalhando de taxi-boat. Janta, banho, filme (007 - o último deles) e fui dormir a meia noite merecidamente. Antes de cair na cama fiquei um pouco no computador e ainda deu para ver algumas baleias comendo krill ao redor do barco. Também um pouco antes da janta falei com a minha filhota Mariana e com mamis, e até rolou um au au para a minha cadela preferida "Lili". E assim foi mais um dia antártico.



Foto 3 Capela ortodoxa ao fundo, no ponto mais alto de Bellingshausen.


Dia 15 (14/12/2012) - (ainda) Aguardando em Frei ...


acordei as 6hs da manhã e vim para a biblioteca. Tudo calmo na baia Fildes, mas ainda com visibilidade muito ruim, como eu imaginava. Logo as 7h30 Mariano acordou o navio com o seu habitual bom dia mas sem novidades sobre o vôo. Então, só nos resta tomar café e esperar....


quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Classica Antarctica 02

Dia 8 (07/12/2012) - ...Ainda em Frei


Achei que eu ia tirar uma soneca depois que o grupo tinha ido embora mas engano meu ! na verdade acabei me metendo em um treinamento de salvatagem sendo eu a vítima que seria salva. Começamos por volta das 5hs da tarde. Vesti a roupa especial de sobrevivência no mar gelado (survival suit), com várias camadas de roupa por baixo, botei um colete salva-vidas inflado e parti para a água. O treinamento foi feito a bordo de um dos zodiacs atracados na plataforma do navio. Em menos de cinco minutos comecei a suar muito e muito. O calor dentro da roupa era insuportável. Não via a hora de cair na água para ver se resfriava um pouco, mas depois descobri que isso não adiantava muito. Só as mãos ficavam mais ou menos em contato com a água gelada pois as luvas eram muito ruins. O resto..só passei calor !



Foto 1 Preparado para cair na água


Eu rolei pela borda, pulei, dei salto mortal, fiz de tudo e ria muito com tudo. Fui salvo e puxado da água umas 20 vezes, mas confesso que algumas vezes eu sacaneei meus colegas, pois não é fácil puxar alguém de dentro d'água, e no braço. E eu ainda atrapalhava segurando embaixo da borda do zodiac.



Foto 2 Pulando na água com salto mortal.



Foto 3 sendo salvo pela Loli.


Bem...adorei ! espero fazer isso de novo. E todos nos divertimos muito, mas a diversão durou pouco pois recebemos visitar: nada mais nada menos que o chefe da base russa de Bellingshausen, toda a guarnição de marinheiros da base chilena e o respectivo chefe, além de um grupo de pesquisadores do INACH - Instituto Antártico Chileno. Bem, tinhamos que fazer as vezes de donos da casa e a festinha correu até altas horas, mas eu escapuli e fui dormir a 01hs da manhã. Quem se deu mal foram as meninas, Pernille, Sandra e Loli, pois eram as únicas mulheres presentes. Coitadas !


Dia 10 (09/12/2012) - Novo Grupo - Classica Antartica 02 + Half Moon


A manhã do dia seguinte foi relativamente tranquila, e recebemos a notícia de que o avião com o novo grupo de passageiros tinha partido de Rio Galegos por volta das 9h15. A AXXI teve que alterar toda a programação de voo por causa das condições da pista, ainda congelada. Os passageiroas estavam voando de hercules, dessa vez um da força aérea argentina, saindo de Rio Galegos e atravessando o Drake em 3 horas e meia mais ou menos. Já eram 12h30 quando avistamos o avião chegando na ilha e dai começou o corre-corre. Eu desci da pista até a praia, cerca de 20 minutos caminhando na neve, fechando a fila de passageiros, e de pronto peguei um dos botes para iniciar o translado, juntamente com Mike e Ben, os outros dois pilotos de zodiac.



Foto 4 Hércules argentino na pista de Frei. Novos passageiros chegando.


Não havia muito o que fazer naquele dia pois já era bem tarde, e por isso Mariano decidiu que fariamos um desembarque na ilha Half Moon, as 19 hs. A luz estava maravilhosa e o céu de um azul profundo. Os glaciares ao longe na Ilha Livingston, que circunda toda Half Moon, se coloriam de laranja e vermelho. O tempo estava tão calmo que ouviamos os pinguins grasnando de longe. Muito bom. Dessa vez o grupo era meio chato, com muita gente que não atendia nossos avisos de permanecer distantes pelo menos 5 metros dos pinguins, ou se manter nas trilhas que abriamos, e tivemos que intervir várias vezes. Uma pena, mas acontece até que com certa frequência. Ainda vimos uma foca de Weddell descansando na praia, bem no local de desembarque.



Foto 5 Foca de Weddell descansando na praia.


Voltamos para o navio para jantar e logo depois desfrutamos de um belíssimo por de sol no estreito de Bransfield, a caminho da península. O sol se pôs as 11h45 da noite e sem uma única nuvem no céu foi possível observar um espetéculo raro - o "Green Flash". Em uma fração de segundo quando o sol se põem sob o horizonte, a difração da atmosfera extremamente limpa e homogênea (por isso é raro) faz com que seja emitido um flash esverdeado. Todos viram o falsh, mas Daniel, nosso guia de montanha, foi mais além. Ele conseguiu fotografar o raio verde. Parabéns Daniel !



Foto 6 O raio verde de Daniel.


Naquela noite eu fui para a cama logo em seguida, embora só tenha conseguido domir mesmo por volta da 1h da manhã. Estava cansado mas sem sono.


Dia 11 (10/12/2012) - Portal Point and Ohrne Cove + Lemaire


Navegamos para o sul por toda a noite e chegamos a um ponto novo que eu não conhecia na península - Portal Point. O local é uma ponte de gelo descendente suave que vem lá de cima da calota de gelo que recobre a antártica até a praia. Pela inclinação suave ela permitia o acesso a calota polar e o local foi usado pelos ingleses em 1950-60 para estudos de glaciologia e geologia. Na época eles usavam cães para puchar os trenós, mas estes foram proibidos a partir de 1992 pelo tratado antártico. Todas as espécies não antárticas foram retiradas do continente logo em seguida e nunca mais se usaram cães para o trabalho.



Foto 7 Local de desembarque em Portal Point.


Meu café foi rápido porque eu ainda tinha que dar uma palestra sobre pinguins antes do desembarque. Corri para me vestir logo em seguida e desembarcamos na praia pontualmente as 9 hs. O primeiro grupo subiu pela ponte de gelo até uns 100 m de altura e eu segui por um caminho mais suave, com um grupo de passageiros que tinham dificuldade de andar. O local tem um visual muito bonito e o céu azul ajudou bastante. Ao longe, sobre os picos da península, viamos nuvens lenticulares (em forma de lente) o que significava tempo bom mas com muito vento. Ainda deu tempo de fazer um passeio de zodiac. Peguei um dos botes e fomos passear entre icebergs e placas de gelo na baia Charlotte, em frente a Portal Point.


Então veio o almoço, e logo a seguir mais um desembarque, desta vez em Ohrne Cove, uma pequena baia incrustada na peninsula com uma pinguineira de mais de 100 m de altura. Ali o caminho é ingrime e de dificil caminhada, e é incrivel encontrar os pinguins tão alto. Muita neve pelo caminho ajudou na subida mas com um efeito ruim para mim. Meu sensor de temperatura instalado no ano passado estava sob uma camada grande de neve. Como não levei uma foto do local, eu sabia mais ou menos onde ele estava, mas a paisagem tinha mudado muito com a neve, e realmente não consegui encontrá-lo. Mais a noite olhei com calma as fotos do ano passado e descobri que eu passei por cima dele sem perceber. Na próxima oportunidade vou retirá-lo e trocá-lo por outro.



Foto 8 Pinguin tirando uma soneca nas alturas de Ohrne Cove.


Voltamos do desembarque felizes pela missão cumprida e fizemos até uma festinha privada, de 20 minutos, no nosso local secreto - deck 3 na popa aberta. Cerveja e centojas (carangueiro gigante), que o Doutor tinha ganho de presente em Port Williams. Delicioso.



Foto 9 Team Meeting no local secreto.


Continuamos seguindo para o sul até o Canal de Lemaire, e novamente cruzamos o estreito duranto um belíssimo por de sol. Desta vez não teve mid-night cruise de zodiac e pudemos descansar um pouco. Mariano, Loli e outros foram visitar o navio "Sea Adventure" comandado por um amigo e eu fui para a cama cedo. Meia noite eu já estava com certeza dormindo.



Foto 10 Lemaire a noite e os turistas congelando pela melhor foto.


Dia 12 (11/12/2012) - Neko Harbour e Danco Island + barbecue


Acordamos (ou melhor, caimos da cama) hoje as 6hs. Café da manhã super cedo mas na verdade tivemos uma palestra do Daniel sobre glaciologia. As 9hs desembarcamos em Neko Harbour, um lugar mágico com uma geleira bastante ativa e uma pinguineira de gentoos bastante barulhenta. Caminhando pela lateral da geleira e passando pela colônia, temos uma subida em neve um pouco íngrime, mas que vale muito a pena pelo visual da baia. Eu fui o primeiro a abrir a trilha e cheguei no mirante natural sem maiores problemas. Consegui localizar o sensor que eu instalei entre as pedras no ano passado e recoloquei um novo. Depois sentei ali e fiquei apreciando a vista fantástica da baía. Que maravilha.



Foto 11 Vista de Neko Harbour


Voltamos para o almoço rápido e logo a seguir nos reposicionamos no meio do canal Herrera, na ilha Danco. Esta ilha é um local bastante calmo, apesar de estar no meio do canal com correntes fortes de maré e grandes blocos de gelo flutuando por ali. Dessa vez decidi não subir a ilha que é bastante inclinada e acabei ajudando na praia, pois um grupo queria apenas caminhar por ali. Ficamos andando entre as pedras e poças de água formadas pela maré baixa por mais de duas horas. Acabei encontrando a carcaça de um leão marinho jovem, que provavelmente tinha morrido a poucas horas pois a membrana dos olhos ainda estava úmida. Deixamos ele ali mesmo na praia e decidimos voltar. Vários pinguins brincavam na praia e na água, e alguns subiam e desciam pelos caminhos na neve. Cheguei a fazer um filme com a minha mini camera, atraindo a atenção de alguns pinguins que decidiram testar se a camera era "gostosa". Apesar de bucólica, a cena foi quebrada pelos tons de cinza.



Foto 12 Pinguim curioso


O tempo tinha fechado e começava a nevar aqui. Voltamos as 16h30 horas para o navio, preparados para o "Polar Plunge" e mais ou menos uns 15 passageiros malucos pularam nas água geladas do canal Herrera. Super congelante, eu diria....mas aquecidos logo após por mais um churrasco maravilhoso, apesar do tempo ruim.


Teminamos a noite no Panorama Louge com uma palestra de Jonathan sobre a experiência dele na Antárctica durante o inverno. E eu fui para a cama cedo porque eu estava bastante cansado, mais pelo frio do que pelo trabalho.



Dia 13 (12/12/2012) - Mikkelsen Island e Spert


Não é a toa que acordar cedo faz bem a saúde. Mas sinceramente não ando me preocupando bem com manter a saúde. Acordamos as 7h15 e fomos direto para o briefing durante o café da manhã. Objetivo imediato - Ilha Mikkelssen. Uma pinguineira de gentoos estava tomando conta da ilha. Nenhuma novidade pois nos outros anos também estivemos por aqui e não encontrei nada demais. Eu tinha um sensor aqui mas ficou debaixo da neve. Só mesmo os pinguins para ajudar a movimentar o desembarque. Acabei ficando com o controle de tráfego da principal pista de pinguins subindo e descendo, impedindo que os turistas cruzassem a via quando algum pinguim estivesse usando a mesma. Pelo menos consegui tirar umas fotos legais. Abaixo dá para ver um pinguim todo sujo descendo para a praia para se lavar.



Foto 13 uma câmera no meio da Highway


Voltamos a bordo e logo depois do almoço dei minha palestra sobre Climate Change, e que teve como sempre um numero alto de ouvintes e uma discussão bem acalorada depois disso. Palestra dada, a atividade da tarde foi andar de bote entre os canais de Spert Island. Uma ilha vulcânica cheio de canais na forma de um labirinto e com a face norte voltada para mar aberto. O efeito disso é um número grande de icebergs encalhados por ali. A região tem ainda algumas cavernas magníficas, mas infelizmente dessa vez estava tudo tomada de pedaços enormes de gelo, o que dificultava a navegação.



Foto 14 Um buraco no meio do gelo.


Mas o visual de navegar entre pedaços de gelo maiores que um prédio é único. Além disso, as paredes imponentes de Spert deixa qualquer um de pernas bambas.



Foto 15 Lar Doce Lar....


Na volta, ainda fizemos uma foto do grupo na frente do Ocean Nova, para a alegria de todos. Eram quase 5h30 da tarde quando retornamos e só sobrou meia hora para um bom banho, e se preparar para o coquetel de despedida. Este grupo está indo embora no dia seguinte e por isso teriamos o nosso jantar especial e mais o concurso fotográfico. A minha noite terminou depois da 1h da manhã, no bar, conversando com os amigos guias, comemorando mais uma etapa cumprida com louvor, e também como despedida do "Thor", nosso guia sueco Bjorn, que vai deixar o navio amanhã rumo a casa dele. Antes de ir para cama fiquei admirando o por de sol maravilhoso no estreito de Bransfield enquanto o navio rumava calmamente para a estação chilena de Frei.


Dia 14 (13/12/2012) - Aguardando em Frei (e visitando Ardley Island)...


Chegamos em Frei as 7hs da manhã debaixo de um nevoeiro enorme, e já com a certeza de que o vôo tinha sido cancelado pela manhã ao menos. Então, estamos em standby mode em Frei aguardando por melhores condições de tempo. Minha tarefa agora pela manhã é guiar turistas pela ilha Ardley que fica a algumas centenas de metros do ponto de fundeio do navio. Assim que eu tiver tempo posto mais fotos.


sábado, 8 de dezembro de 2012

Antarctica Express 01

Dia 1 (30/11/2012) - Passeando por Port Williams


Um pouco de confusão marcou o início dessa viagem. Afinal, todos os 49 passageiros que decidiram ficar e cruzar o Drake conosco tiveram que mudar completamente seus planos de viagem. Imagino o tamanho do rolo que foi isso. Atravessamos o canal de Beagle na noite anterior e atracamos em Port Williams. Os planos para o primeiro dia incluíam a carga do navio, distribuição das botas especiais para os passageiros, e mais atividades nossas de guias. Minha primeira função foi levar o grupo de passageiros para um passeio pela pitoresca Port Williams. A foto diz tudo - a cidade é incrivelmente pequena mas a vista é fabulosa. Passeamos pelo centro e pelo museu (o único da cidade) que conta um pouco a história dos povos indígenas que habitavam a região.



Foto 1 Panorama de Port Williams visto do centro da vila.


Voltamos para o navio para o almoço e logo a tarde já pegamos novamente no pesado, com a carga do navio (principalmente do shopping que a AXXI mantém a bordo) e ainda levando 2 grupos para um passeio pelo parque etnobotânico Omora (que significa uma divindade indígena representada por um beija-flor). Aparentemente, no verão, milhares de pássaros vindos principalmente do Brasil, chegam até aqui para nidificar e se alimentar da floresta de Omora. Lugar lindo ! com toda certeza vale muito a pena visitar.



Foto 2 Parque Omora com o grupo bastante animado


A tarde voou rápido e logo estávamos de volta ao navio para zarparmos as 22hs com destino a cabo de Hornos. Até que foi uma noite tranqüila, mas eu, para variar, não consegui dormir direito, estranhando a cama. Paciência ! pelo menos eu escrevo meu diário.


Dia 2 (01/12/2012) - Cape Horn e "The" lake Drake


Acordamos pela manhã às 7h30 bem próximos de Cabo Horn e às 9hs desembarcamos na ilha sob uma chuva gelada e um vento sudoeste firme. Ainda assim foi bom demais começar finalmente a viagem. Cape Horn ou Cabo de Hornos é uma ilha no fim do mundo que possui um farol cuidado e controlado pela marinha chilena. O faroleiro é militar e no caso atual, estava acompanhado de sua esposa e seu filho de 6 anos e uma filha de 9 anos de idade. Chegamos exatamente no primeiro dia de trabalho dessa família ali na ilha e creio que foi bastante estressante para eles vendo um grupo de quase 50 passageiros de vários lugares do mundo chegando ao mesmo tempo em um local tão apertado como era a casa do faroleiro. Dividimos os visitantes em dois grupos, um para o farol e outro para o monumento ao Albatroz (uma placa de pedra vazada com um albatroz em escala 1:1, mostrando quão imenso é esse animal). A ilha é alta, com escarpas íngrimes, e para se chegar ao platô onde se encontra o farol, é necessário subir uma escadaria de madeira capenga com 160 degraus. De lá, partem dois caminhos e mantemos todos em fila para evitar alguém passando pelos campos abertos da ilha que, segundo contam os registros, ainda contém algumas minas terrestres.



Foto 3 Desembarque em Capar Horn


A chuva não deu trégua mas também era pedir muito. Já agradeci bastante a Netuno por manter o mar tranqüilo e sem o swell pesado que normalmente tem na região. Portanto o desembarque foi bastante simples, mesmo com as pedras da praia bastante escorregadias. Fiquei nesse vai e vem de cima para baixo ajudando os grupos que, por causa do frio, decidiram por uma visita curta e logo estavam de volta na praia pedindo para subir a bordo. Vimos alguns lobos marinhos pela volta e também uma baleia Minke nadando por ali perto da praia, e logo antes do almoço, por volta das 11h30, já estavam todos a bordo. Zarpamos para o Drake com a sensação de que, apesar da chuva, ele estaria calmo. Dito e feito ! The "Lake" Drake foi o que encontramos. Dei uma palestra sobre a Convergência Antártica até que com um público bom, e o final da tarde veio com tempo tranqüilo e pouco vento, vendo os albatrozes e petréis dançando atrás do navio.



Foto 4 The Lake Drake e seus pássaros.


Ainda comemoramos o aniversário do Mike, com direito a bolo e parabéns de todos. A comemoração se estendeu um pouco mais no bar, com algumas brincadeiras, uma cerveja e um pouco de música, mas preferi ir cedo para a cama. As 23 hs eu já estava deitado e pronto para uma noite de sono bom.


Dia 3 (02/12/2012) - Cruzando a segunda metade do Drake


Todos os dias Mariano entra no sistema de som do navio com um "Bom Dia Ocean Nova", cerca de 30 minutos antes do café da manhã. Chamamos isso de "Wakeup Call", e hoje, decidimos que não haveria o wakeup call e nem a chamada para o café da manhã. Acordei as 7h30 com o sol entrando pela vigia do meu quarto e o Drake ainda continuava calmo e liso como uma piscina. Incrível ! acho que este foi o Drake mais tranqüilo da minha vida. Terminei de tomar café e ainda voltei para o quarto para finalizar minha apresentação do dia. Lá pelas 10 horas da manhã alguns passageiros guiados por Bjorn, junto comigo e Sandra, vieram para olhar os pássaros que voavam baixo na popa do barco. Essa visão, dezenas de aves voando atrás do navio, foi incrivelmente bonita com o céu azul e apenas algumas nuvens no céu. Até que não estava frio (mais ou menos 5 graus) mas tínhamos que ficar com os casacos pesados por causa do vento, fraco mas constante.



Foto 5 Cruzando o Drake e descansando ao sol.


Não tem muito o que dizer da tarde. Até deu para descansar um pouco depois do almoço, mas o que mais apareceu estranho foi o tempo que mudou. Lá pelas 2 horas da tarde o céu ficou cinza e começou a nevar firme e forte, até a noite. A visibilidade caiu muito e a temperatura baixou a zero. Dei minha palestra sobre pingüins as 4horas da tarde e depois disso só fiquei com algumas funções operacionais do navio, ajudando aqui e ali. O plano para o dia 4 será visitar a ilha Deception. Vamos ver no que vai dar. Por volta das 22h30 avistamos a ilha Smith, cerca de 30 milhas a oeste de Deception. O céu abriu e o por do sol nos brindou com uma noite memorável e fria (cerca de 2 graus de temperatura do ar). Maravilha !



Foto 6 Chuvas (ou neve) no final do Drake



Dia 4 (03/12/2012) - Baily Head e Telephon Bay (Ilha Deception)


Foi duro acordar as 6 hs da manhã mas valeu a pena. Já estávamos praticamente parados na frente de Bailey`s Head, uma pedra com cerca de 300 m de altura na ponta sudoeste da Ilha Deception. Normalmente os barcos não param por ali porque a praia é de acesso muito difícil e ondas batem com tanta força ali que ela tem uma Berna de mais de 2 m de altura. Literalmente uma praia de tombo. Ali fica a maior colônia de pingüins da península com mais de 200 mil pingüins de barbicha (Chinstrap). Entramos por volta das 8 hs da manhã com os botes, e eu abri a fila com os primeiros 10 passageiros, tentando passar por uma verdadeira autopista de pingüins subindo e descendo a ladeira. O que mais me impressionou foi um bloco de gelo sólido com mais de 10 toneladas preso bem dentro da praia, a mais de 50 metros da água. Eu imagino a força e a altura da maré+ondas para colocar um bloco daquele tamanho ali. Subimos a primeira crista e logo o ar se encheu de som de pingüins grasnando um pelo outro (além do cheiro de guano, meio camarão com peixe). Várias skuas e mais um petrel gigante estavam pela área tentando conseguir um bom café da manhã.



Foto 7 Primeiros pingüins.


Foram duas horas de visita a pinguineira, fria e divertida. O vento começou a entrar um pouco mais forte no final da manhã mas já estávamos de saída. As 11h30 em ponto zarpamos dali e começamos o caminho para Telephon Bay, dentro da ilha Deception (que na verdade é a cratera de um vulcão). Entrada apertada e alguns vizinhos - o Sea Adventure, da Quark Expeditions estava em Whalers Bay e o navio da Marinha do Brasil, o Almirante Maximiliano, mais ao fundo próximo a base espanhola. Ao entrarmos deparamos com uma camada grossa de gelo marinho no fundo da baia e decidimos "atracar" o navio no gelo. Para isso, foi preciso entrar em velocidade no gelo, de forma que o navio ficasse preso. E conseguimos ! Partimos para um almoço rápido e logo depois descemos no gelo para tirar fotos, jogar futebol, e caminhar por ali.



Foto 8 OCN no gelo - fenomenal !


A foto já diz tudo - a maior diversão foi pegar a corda grossa na frente do barco, fazendo de conta que puxávamos ele no gelo. Na foto dá para ver ao fundo ainda o time de futebol se aquecendo para o jogo "Pax VS Staff". Divertidíssimo ! Lá pelas 3h30 da tarde levantamos acampamento e zarpamos pela saída da ilha de volta a mar aberto. Nosso destino agora são as ilhas Enterprise, mais dentro da península, onde vamos fazer um cruzeiro de zodiac amanhã e tentar encontrar novidades entre as ilhas de Foyn harbour.



Dia 5 (04/12/2012) - Foyn Harbour e Curverville Island


Lembro que acordei com meu despertador em um quarto completamente escurecido e silencioso, algo que é bem anormal para um navio. É que estávamos ancorados ao largo da ilha Enterprise, na paradisíaca Foyn Harbour. Nossos planos incluiam um bom passeio de zodiac ente as ilhas congeladas. E foi o que ocorreu. Sempre que estive aqui em Foyn podíamos andar livremente entre os canais e ilhas, mas pela primeira vez eu me perdi com tanta neve. Normalmente as ilhas tem marcas claras que usamos como referência, mas dessa vez todas estavam tão cobertas de neve que era muito difícil saber qual é qual. Pelo menos o navio ficou ao largo no estreito de Gerlache e ficou fácil para voltar a bordo. No caminho, visitamos os restos do navio "Gorvernor" que afundou em 1915 com uma carga avaliada (corrigida para valores atuais) de 10 milhões de dólares em óleo de baleia azul - algo que, embora caro, não pode mais ser comercializado. Atracado a bombordo dele estava um veleiro Frances de nome "Paradise". Ahh que vontade de ficar velejando por aqui.



Foto 9 Visitantes de Foyn - yatch Frances junto ao barco afundado.


Voltamos para o navio para o almoço e logo nos movemos mais para o sul, na verdade para sudeste, em direção a ilha Curverville, com sua imensa colônia de pingüins gentoos. O dia estava especialmente claro, céu azul e sem vento, o que tornou a visita a ilha quase que uma sauna a céu aberto. A neve fofa duplicava o trabalho de andar e marcar o caminho para os turistas. Passei um calorão danado com a montanha de roupas que estávamos usando. Mas logo me meti para abrir a trilha até o outro lado da ilha com a espetacular vista das montanhas ao redor da ilha. Ainda sobrou até um tempinho para o meu amigo Mike dar uma "palinha" para os pingüins, tocando sua guitarra. Realmente foi uma tarde especial.



Foto 10 Mike e os pingüins.


O dia estava tão tranqüilo que imediatamente depois de voltarmos de Cuverville, zarpamos para o canal de Lemaire. Deu só tempo de jantar e fomos diretos para aparte aberta do deck 5 para ver a entrada do canal, perfeitamente alinhada com sudeste, o que torna o canal quase que um túnel para a luz do sol no fim de tarde/noite entrar com cores alaranjadas e vermelhas.



Foto 11 a mágica entrada do portal de Lemaire.


Com toda certeza esse é um dos lugares mais bonitos daqui dos mares austrais. Apesar do vento frio dentro do canal a travessia foi absolutamente incrível. Já eram 22 horas quando chegamos do outro lado, e quando Mariano entrou no rádio com uma de suas insanidades antárticas - "Late Zodiac trip" ! Iriamos aproveitar pelo menos mais uma hora de luz até o sol desaparecer atrás dos icebergs. Corremos feito loucos entre os icebergs sob o delírio dos passageiros que, apesar do frio, sorriam e riam sem parar. Wonderfull ! Fui dormir cansado e completamente exaurido de minhas forças, mas feliz pelo presente de final de dia.



Foto 12 Por de sol da meia noite



Dia 6 (05/12/2012) - Petermann Island, Verdnasky e Antarctic Barbecue


Nos movemos de manhã bem cedo para a frente da ilha Petermann com o objetivo de fazer um passeio longo e tranqüilo entre as diferentes colônias da ilha. Petermann é a chave para um fato curioso, o avanço para o norte da ocupação dos pingüins Gentoos e a perda de espaço dos pingüins Adélie. A ilha sempre teve muitos adélies mas de alguns anos para cá tem mostrado cada vez menos ninhos e mais gentoos espalhados por toda a ilha, ainda dividindo espaço com cormorantes de olho azul. Quando chegamos para o desembarque, um juvenil de elefante marinho estava descansando na praia e sinceramente, me parece que não gostou muito de ter sua paz perturbada pelos zodiacs barulhentos encostando perto dele. Andamos por toda a manhã pela ilha e eu aproveitei para recolher um dos meus sensores de temperatura que tinha sido instalado por Loli e Mariano um ano atrás. Fiquei muito surpreso quando baixeis os dados do meu sensor e vi que a temperatura mais baixa do inverno antártico foi de apenas -16 graus e durante boa parte do ano ficou ao redor dos -5 graus. Bem, coloquei outro sensor no lugar deste, na esperança de que no próximo ano vou vir novamente recuperá-lo.



Foto 13 Panorama de Petermann Island


Voltamos para o navio e nos movemos mais para o sul, para a frente das Ilhas Argentinas, que, apesar do nome, tem uma base ucraniana instalada ali. Verdnasky era o nosso objetivo e trabalhei bastante toda a tarde, controlando os passageiros pela base e para um passeio mais longo até Wordy`s House, um pequeno museu mantido como era originalmente pelo geólogo da expedição de Schakelton, Dr. Wordy, que trabalhou ali por um tempo.



Foto 14 Barbecue antártico


Pontualmente as 6 da tarde retornamos para o navio para festejar - era dia de churrasco ! O famoso Antarctic barbecue no deck 5, aberto ao sol, vento e obviamente frio. Mas foi bastante legal ficar um pouco ao ar livre e de pernas para o ar. Esse dia em especial podíamos vestir nossas roupas "normais" pois todos os outros dias estou com o uniforme da empresa (Antarctica XXI). Terminado o churrasco por volta das 19h30, fomos todos para o bar do navio para tocar musica, beber e jogar conversa fora. Mike pegou na guitarra e eu no bongô, e (nos) divertimos muito com todos que ainda conseguiram ficar até tarde - 2hs da manhã, na melhor das noites antárticas.


Dia 7 (06/12/2012) - Paradise Bay, Polar Plunge e Melchior Islands


Acordei as 7hs da manhã com o Mariano falando no sistema de som, dando nossa posição e informando que o céu estava azul e o tempo firme. Felizmente ! para nós ! Estávamos ancorados em Paradise Bay - um pedacinho muito especial da Antártica. Ao fundo da baia estava a base Almirante Brown (Argentina), silenciosa para os humanos porque os argentinos ainda não tinham aberto a base este ano, mas ruidosa para os pingüins que tomavam conta de toda a entrada da base, na volta dos prédios e pelas colinas. Colocamos 6 botes na água e zarpamos para Skontorpe Cove, onde um dos maiores glaciares da região encosta no mar. As águas estavam super tranqüilas e passeamos por mais ou menos uma hora, entre muitos pedaços de gelo flutuando em todas as cores de azul e branco. Passamos uma hora entre as águas tranqüilas e o glacier, para depois desembarcar na base e subir a colina. Sem vento e com sol a temperatura sobre a neve chegava a mais de 20 graus !! (de sensação térmica). Eu literalmente estava cozinhando dentro do casaco e tive que tirar algumas camadas de roupa para poder agüentar. Logo depois voltamos para o navio para uma tradição dessas viagens. O famoso "Polar Plunge", quando os passageiros e quem mais quiser caem na água gelada para comemorar a viagem, começou por volta das 11h30 e teve uma participação excelente, com mais de 20 passageiros malucos correndo para fora do barco pela gangway. Foi divertido e tiramos muitas fotos, principalmente para mostrar para eles no final da viagem o quão louco eles são.



Foto 15 Navegando em Skontorp Cove, Paradise.


Seguimos firme nos planos e logo após o almoço avistamos um grupo de orcas, já no estreito de Gerlache, atravessando para as Ilhas Melchior. Um macho grande e algumas fêmeas e juvenis. Mas não pareciam estar caçando. Apenas estavam por ali, navegando entre as ilhas.


Logo em seguida chegamos as ilhas Melchior, na parte externa de Gerlache e com o vasto mar de Bellingshausen a oeste. Melchior é um grupo de 4 ilhas cheias de canais congelados. Um verdadeiro labirinto e ideal para passeios de zodiac. Novamente 6 botes na água e zarpamos para vasculhar por vida marinha entre esses canais. Encontramos alguns deles completamente congelados e com dúzias de focas de Weddell sobre as placas de gelo, dormindo ao sol ou apenas ali descansando um pouco.



Foto 16 Focas no Gelo.


Um e outro pingüim sobre os icebergs da área foram avistados e mais adiante vimos uma jubarte curiosa que ficou nos rodeando por pelo menos 30 minutos, até perder o interesse e sair mergulhando para mar aberto. Foi um dia incrível, mas de mudanças. Logo no final da tarde o céu ficou cinza e nuvens carregadas de neve taparam por completo nossa vista de terra. Agora estamos rumando para o norte novamente, para as ilhas Shetlands e nosso objetivo amanhã é visitar Half Moon Island. Mas isso eu deixo para amanhã. Good Night.


Dia 8 ( 07/12/12) - Half Moon & Yankee Harbour + Orcas


O dia começou sem o "Wakeup Call" tradicional do Mariano. O cansaço da noite anterior tinha sido imenso e precisávamos de uma pausa. Mesmo assim, 7h30 eu já estava acordado e perfeitamente preparado para o dia cansativo que viria adiante. Desembarcamos em Half Moon logo após o café da manhã com um céu tímido cinza. Na madrugada tínhamos enfrentado uma nevasca de flocos grandes que cobria todo o navio. A ilha Half Moon fica a apenas algumas horas da estação chilena Frei onde está o aeroporto que usamos nas nossas operações e tínhamos bastante tempo para explorar a ilha que tem uma grande quantidade de pingüins Chinstrap (Pinguim de Barbicho). Eu abri a trilha até a parte sul da ilha e durante duas horas ficamos controlando o vai e vem dos passageiros e se divertindo com o vai e vem parecido dos pingüins. Na volta até deu tempo para descansar os pés na água fria e relaxante da praia.



Foto 17 Pé a areira, melhores férias impossível !


Voltamos para um almoço rápido pois logo em seguida o navio se movimentou para Yankee Harbour na ilha Greenwich. O local é um porto quase que natural, com um enorme glaciar na frente e uma colônia imensa de pingüins, mas que eu dispensei de visitar porque precisava instalar mais um dos sensores de temperatura na ponta de Yankee Harbour, que fica a mais ou menos uns 3 km do ponto de desembarque. Pulei do bote que ia para a praia bem na ponta desse porto natural e escalei os 2 metros de neve que separa a parte de cima da praia da linha d`água propriamente dita. Havia muita neve por ali e foi bastante difícil se movimentar, até que consegui chegar até um marco de ferro com um sinal náutico, instalei o sensor de temperatura e voltei caminhando sobre a neve fofa quase metade do caminho. Foi dureza pura !! e muita falta de inteligência. Afinal, esqueci que eu estava com as botas a prova d`água. Encontrei um caminho de foca na neve (feito por focas que sobem até a parte alta da praia para descansar na neve) e desci até a água, e daí em diante foi fácil fácil, pois só precisei andar dentro d`água (ou até a canela, pelo menos).



Foto 18 Instalando um equipemento em Yankee


Ainda tive que voltar uma parte com alguns turistas mas nada demais. Só fiquei um pouco sem fôlego. Passamos mais ou menos duas horas em Yankee e zarpamos rumo a base Frei (Chile) e eu ainda corri para preparar o concurso fotográfico, o qual eu seria o responsável essa noite. Mas, quando eu achava que ia dar tempo de fazer tudo, mesmo tendo ainda que tomar banho, aparece então uma família de orcas navegando na frente do navio. Mariano me chamou rapidamente e em menos de 2 minutos eu estava dentro do zodiac, correndo feito louco com 6 passageiros atrás de uma boa dúzia de orcas. Passamos uns 40 minutos por ali, navegando no meio do estreito de Bransfield - mar aberto com um swell considerável, e cheios de orcas ao redor. Voltamos para o navio em seguida e eu correndo de novo para colocar uma camisa social e gravata, para o coquetel de despedida e o concurso fotográfico (Ufa!). Mas até que deu tempo. Paramos em Frei por volta das 21 horas e ainda fiquei acordado até a meia-noite para poder enviar alguns emails. Daí cai exausto na cama para acordar as 6h00 do dia seguinte...ai ai ai ai ai.


Dia 9 (08/12/2012) - Frei Frei Frei


Nem deu tempo de respirar. Eu engoli alguma coisa no café enquanto Mariano passava as instruções e já desci a toda velocidade para a entrada do navio para transportar as bagagens dos passageiros até os botes. Foram 2 botes cheios de malas e eu agarrado a uma dúzia delas, junto com Mike, transportamos tudo para a praia onde o caminhão da empresa nos aguardava. O aeroporto de Frei é uma base militar chilena e estava com uma cobertura de neve maior que 2 m. Foi difícil passar com o caminhão, que mais parece um trator de guerra do que um carro, e eu estava com tanto sono que até tentei tirar uma soneca subindo a colina de neve, mas o carro é muito barulhento. Subimos com o veículo até a pista, uns 5 km adiante, largamos as malas e eu voltei descendo a pé pela neve.



Foto 19 Aguardando o tão ansioso vôo.



Embora esta parte do relato pareça rápida, tudo isso durou mais de 3 horas. No final da manhã, a faina que começou as 6h00 terminou as 11h30, com um Hércules C-130 da força aérea chilena pousando e pegando todos os passageiros. Como a pista de Frei estava congelada, o avião da Antarctica XXI não podia aterrissar. Só aviões militares de carga conseguiam fazer isso. Com muito esforço e coordenação, conseguimos colocar todos os passageiros dentro do avião e as 12h00 em ponto estávamos todos sentados a mesa tendo nosso almoço.


Agora são quase 3 hs da tarde e eu aqui vou publicar esse blog. Como não vieram passageiros no vôo, conseguimos pelo menos a tarde de hoje livre. A maioria dorme, e assim que eu terminar aqui vou dormir também. A próxima viagem vai demorar mais ou menos 5 dias, então, depois do dia 13 estou por aqui de volta.